A Evolução da Qualidade do Café no Brasil
Quem nunca escutou a afirmação de que o café de alta qualidade produzido no Brasil é destinado à exportação, enquanto os grãos inferiores ficam para o consumo local? Essa noção, embora comum, não reflete a realidade atual do mercado. Sérgio Parreiras, pesquisador do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), afirma que essa percepção está ligada a um passado em que a qualidade do café era frequentemente comprometida.
Nos anos 80, o setor cafeeiro brasileiro enfrentava sérios problemas de qualidade. Naquela época, o governo tinha um controle limitado sobre a produção e a comercialização, o que facilitava fraudes como a mistura de café com cevada e milho. Essa questão foi abordada em um artigo de 1998 publicado pelo Inmetro. Além disso, o governo estabelecia preços fixos para o café, o que desestimulava os produtores a investirem na qualidade dos grãos. Assim, independentemente da qualidade dos produtos, o preço final permanecia igual.
O Marco da Mudança em 1989
As coisas começaram a mudar em 1989, quando o governo transferiu a responsabilidade de regulamentação do café para a Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic). Pavel Cardoso, atual presidente da Abic, explica que a associação, preocupada com a queda do consumo de café no Brasil, promoveu a exigência de que as empresas comercializassem pacotes compostos por 100% de grãos de café.
As indústrias que se adequaram a essa nova norma passaram a receber o Selo de Pureza da Abic. Esse selo tornou-se um símbolo de qualidade, com campanhas publicitárias estreladas por Tarcísio Meira, que afirmava: “Por trás desse selo, só tem café”. As propagandas foram veiculadas em mídias variadas, inclusive em novelas populares da época, como a trama ‘Tieta’, de 1990.
Regulamentações Recentes e o Café Especial
A evolução na qualidade do café também foi impulsionada por regulamentações mais rigorosas. Em 2022, o Ministério da Agricultura implementou um padrão de qualidade para o café torrado, determinando que os pacotes não poderiam conter mais de 1% de impurezas, como folhas, galhos ou até mesmo açúcar. Essas novas regras, que começaram a vigorar em 2023, fortaleceram as fiscalizações do governo e levaram a apreensões de marcas que comercializavam “café fake”.
Desde a década de 90, com a redução da intervenção estatal, produtores brasileiros começaram a focar mais na qualidade de seus grãos, com o surgimento da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) em 1991. Este segmento da indústria é dedicado à produção de cafés de qualidade superior, comercializados a preços mais altos e, em sua maioria, destinados à exportação. Vinicius Estrela, diretor-executivo da BSCA, revela que, em 2015, apenas 1% do café especial produzido no Brasil era consumido internamente. Hoje, esse número subiu para 15%, com o crescimento do mercado interno.
Desafios da Década de 1980
Nos anos 80, o foco na qualidade do café era praticamente inexistente. O Instituto Brasileiro do Café (IBC) controlava o setor, mas apenas em termos de preços e volume, criando um ambiente propício para fraudes, como exemplificado por uma pesquisa da Abic que revelou que 30% do café comercializado na época era fraudado. Hoje, esse percentual é inferior a 1%.
Os preços tabelados também prejudicavam a qualidade, pois os torrefadores não tinham incentivos para oferecer produtos melhores. A formação de estoques de café, comprados pelo IBC para estabilizar preços, contribuía para a deterioração da qualidade. Assim, o consumo per capita de café caiu significativamente, de 4,8 kg por ano em 1965 para apenas 2,27 kg em 1989, segundo dados do Inmetro.
Iniciativas de Qualidade e Controle Atual
A Abic, após assumir o controle da regulamentação do mercado, começou a implementar auditorias e monitoramento da qualidade do café. Além do Selo de Pureza, a associação realiza análises rigorosas, incluindo a inspeção sensorial, auditorias de boas práticas e monitoramento em pontos de venda para garantir que os padrões de qualidade sejam mantidos. Essas práticas vêm estimulando os agricultores a investir mais na qualidade de seu produto, resultando em cafés premiados globalmente.
O controle da qualidade do café, iniciado há mais de três décadas, representa um marco importante na luta contra a ideia de que o café brasileiro é inferior. As mudanças implementadas não apenas melhoraram a percepção do produto, mas também elevaram o padrão de consumo interno, tornando o café brasileiro uma referência mundial.

