Desempenho dos candidatos no Rio de Janeiro comparado a outros estados
O cenário eleitoral do Rio de Janeiro apresenta uma realidade distinta em relação a estados como São Paulo e Minas Gerais. Enquanto Nikolas Ferreira (PL) alcançou 3.119.318 votos em Minas Gerais, o que corresponde a 27,19% dos votos válidos e o posiciona como o mais votado do país, e Lucas Pavanato (PL) ultrapassou a marca de três milhões em São Paulo, com 12,82% dos votos válidos, o Rio mostrou números mais modestos. O deputado federal mais votado no estado, Dr. Luizinho (PP), recebeu 103.745 votos, representando apenas 2,41% dos votos válidos nas últimas eleições.
Quando considerado o número absoluto de votos, Dr. Luizinho ocupa a 15ª posição nacional, mas essa colocação cai para a 291ª quando se leva em conta a proporção entre votos e eleitores do estado. Entre os candidatos a deputado estadual, o padrão se repete: Índia Armelau, a mais votada no Rio, conquistou 2,82% dos votos válidos.
Fatores históricos e políticos que explicam a dispersão dos votos
Especialistas apontam que a baixa representatividade dos candidatos mais votados reflete uma série de fatores históricos e políticos que marcam o estado. A transferência da capital para Brasília em 1960 retirou do Rio seu protagonismo político nacional, enquanto práticas clientelistas prevalecem, com parlamentares apoiando governos independentemente de ideologias para assegurar recursos e manutenção no poder.
Marly Motta, especialista em história política do estado, destaca que em 1962 Leonel Brizola foi eleito deputado federal pelo antigo Estado da Guanabara com 22% dos votos válidos, numa época em que figuras como Carlos Lacerda exerciam influência nacional. Hoje, a ausência de nomes de expressão nacional resulta em votos mais dispersos. A fusão da Guanabara com o Estado do Rio, há mais de 50 anos, também contribui para essa fragmentação, já que o interior e a capital permanecem em disputa pelo protagonismo político e econômico.
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Perfil do eleitorado e influência do voto distrital
André Eler, diretor-adjunto da consultoria Bites, observa que o Rio tem um perfil de voto mais distrital, onde o político representa áreas específicas, o que leva a uma dispersão maior nas votações. Esse fenômeno ocorre independentemente do tamanho do eleitorado e é válido tanto para políticos tradicionais com redutos eleitorais quanto para candidatos que se destacam pelo voto de opinião, ideologia ou presença nas redes sociais.
O ex-prefeito de Belford Roxo e deputado estadual Márcio Canella (União) exemplifica essa dinâmica. Ele obteve 197.118 votos para a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), mas 67,9% desses votos foram concentrados em Belford Roxo, representando apenas 2,24% dos votos válidos no estado. Canella atribui seu resultado à proximidade com os eleitores e ao foco no atendimento às demandas locais, reforçando o conceito de um “deputado-vereador” voltado para ações diárias em sua região.
Redes sociais e o impacto limitado no Rio de Janeiro
Apesar da crescente importância das redes sociais na política, o desempenho dos candidatos fluminenses nas urnas não atingiu o mesmo nível de outros estados. André Eler cita o vereador Rick Azevedo (PSOL), que conquistou 191.371 votos (2,16%) para deputado federal após uma campanha viral na internet. No entanto, seu resultado ficou aquém do desempenho de candidatos como Fábio Félix, do Distrito Federal, que alcançou 224.224 votos (13,41%).
O especialista também destaca a ausência no Rio de personagens políticos com grande influência nacional, como Nikolas Ferreira, que apoiou cerca de 20 deputados federais eleitos em todo o país. No estado, o apoio de Ferreira contribuiu para a eleição de Gabriel Costenaro (Novo) à Assembleia Legislativa. Costenaro, ex-membro do Livre (MBL), ganhou destaque nacional após um confronto com o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ) em abril de 2024, episódio que culminou com sua retirada do Congresso à força. Agora, ambos são colegas na Câmara dos Deputados.
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Comunicação digital e migração de talentos para a política
O cientista político Fábio Vasconcellos, professor da Uerj e da PUC-Rio, ressalta que os candidatos mais votados em outros estados já possuíam carreiras consolidadas nas redes sociais antes de ingressar na política. Essa migração de talentos da comunicação digital para o campo político pode explicar parte da diferença de representatividade observada no Rio de Janeiro.
Entre os deputados federais eleitos com maior votação proporcional no país, sete apresentam perfil conservador, com PT, PSD e PSOL também entre os partidos mais representados. Já os deputados estaduais eleitos incluem cinco do PL, além de representantes do PT, União, MDB, Republicanos e Podemos. Nenhum desses deputados estaduais de destaque foi eleito pelo Rio de Janeiro.
Resultados e perspectivas para o PL no Rio de Janeiro
O vice-presidente da Câmara dos Deputados, Altineu Côrtes (PL-RJ), enfatiza a importância do desempenho do partido no Rio nas últimas eleições. O PL elegeu dois senadores, 15 deputados federais e 21 deputados estaduais no estado, consolidando sua força. Côrtes destaca que Carlos Jordy, bastante ativo nas redes sociais, optou por concorrer ao Senado e foi eleito, ficando com 175.161 votos para deputado federal, quinto maior em número absoluto no estado.
O cenário político do Rio de Janeiro nas eleições recentes revela uma dispersão significativa dos votos, reflexo da complexa dinâmica histórica, social e eleitoral do estado. O próximo desafio será observar como esses deputados representarão seus eleitores em Brasília e quais estratégias adotarão para ampliar sua influência política e administrativa no cenário nacional.

