Realidade Dura em São Gonçalo
Dona Maria Ribeiro, de 86 anos, enfrenta dificuldades diárias em sua casa na Fazenda dos Mineiros, em São Gonçalo. Após machucar o tornozelo em um vergalhão exposto na varanda de sua residência, que é um barraco de madeira protegido de chuva por um forro instalado por ONG, ela seguiu mancando para votar no último domingo, embora não soubesse exatamente em quem havia votado. A falta de acesso a serviços básicos é evidente: sem saneamento adequado, a água usada para banho vem de fontes não tratadas a 800 metros dali, no Pistão do Complexo do Salgueiro.
Essa realidade não é isolada. Vizinhos como Cleidiane Gomes, de 31 anos, cozinham com lenha no quintal ou com grelha elétrica improvisada dentro de casa, conectando fios manualmente para fazer o fogão funcionar. São Gonçalo apresenta um contraste gritante entre a carência de infraestrutura e os investimentos milionários recentes.
História e Desigualdade
Fundada em 1579, São Gonçalo carrega uma trajetória marcada por expansão econômica e desigualdades sociais profundas. A cidade, que já foi apelidada de “Manchester Fluminense” devido ao seu passado industrial, viu suas indústrias migrarem entre as décadas de 1930 e 1960, gerando uma crise que a transformou em uma “cidade-dormitório”. Hoje, a população enfrenta desafios como violência urbana, corrupção e perda de habitantes. Dados do IBGE indicam que São Gonçalo foi a cidade com maior perda populacional entre municípios com mais de cem mil habitantes nos últimos três anos.
Apesar disso, São Gonçalo manteve seu peso político. Com o segundo maior colégio eleitoral do estado, foi decisiva na eleição do próximo governador do Rio, Douglas Ruas (PL), que recebeu 60% dos votos locais. O prefeito Capitão Nelson (PL), pai de Ruas, também foi reeleito com ampla vantagem.
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Investimentos e Infraestrutura
O município recebeu R$ 262 milhões graças à parceria entre o governo estadual e a prefeitura local. O principal projeto financiado é o Mobilidade Urbana Verde Integrada (MUVI), que prevê a construção de um corredor viário com 32 estações, abrangendo 13 bairros ao longo de 18 quilômetros, incluindo áreas verdes, lazer e ciclovias. A obra passou por auditorias do Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) e da Controladoria-Geral do Estado (CGE-RJ), sem apontar irregularidades.
Por outro lado, a promessa da Linha 3 do metrô, que ligaria Rio, Niterói e São Gonçalo, ainda gera expectativa, já que o município apresenta um dos maiores fluxos diários de trabalhadores para essas cidades, segundo o IBGE, mas carece de alternativas eficientes de transporte.
Desafios na Educação
Em 2025, São Gonçalo obteve índice 4,9 no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), a terceira menor nota do estado, empatando com Duque de Caxias. O município não atingiu a meta nacional de 6. O sindicato local de professores tem reivindicado concursos públicos para reforçar o quadro docente. A prefeitura afirma ter realizado dois concursos desde 2022, convocando mais de três mil profissionais, incluindo 700 professores de apoio especializado, e prorrogado a validade do último concurso por dois anos.
Cultura Como Movimento de Resistência
Enquanto a educação enfrenta dificuldades, a cultura emerge como um motor de transformação social em São Gonçalo. Movimentos populares, como as batalhas de rap, têm revelado talentos locais e conquistado reconhecimento nacional nas mídias digitais. O projeto Cidade Ilustrada celebra personalidades gonçalenses, como o craque Vini Jr. e o artista urbano Amanda Cabocla, com murais que fortalecem a identidade local.
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São Gonçalo é reconhecida como o berço do grafite no estado do Rio e tem importância histórica na umbanda e no esporte, além de ter participado da construção da cabeça e mãos do Cristo Redentor. O artista visual Marcelo Eco destaca que a cidade é mais potência do que carência.
Saúde e Infraestrutura em Desenvolvimento
Na área da saúde, o antigo Hospital Franciscano foi transformado no Hospital do Câncer e do Coração (HCCOR), atendendo pacientes de todo o estado. A Secretaria de Saúde informa que um novo hospital municipal está em construção no Centro, com previsão de entrega para o segundo semestre de 2027, assim como a nova Clínica Municipal Gonçalense de Neves.
Em paralelo, a segurança pública tem registrado avanços perceptíveis para moradores, como a instalação de um batalhão da Polícia Militar em Venda da Cruz, ampliando a presença policial e a sensação de proteção em bairros como Nova Cidade.

