A Ascensão do Bolsonarismo nas Pequenas Cidades
Com a proximidade das eleições, o panorama político brasileiro se torna cada vez mais intrigante. Neste contexto, a perspectiva de uma vitória de Lula, que se apresenta como a opção mais viável no momento, traz consigo um caráter de incerteza. Sem um sucessor claro, a situação se complica para o ‘príncipe caído’ Fernando Haddad, que se mostra um tanto deslocado na política atual. Por outro lado, uma vitória de Flávio Bolsonaro seria uma reviravolta inesperada, desmantelando as alianças construídas ao longo dos anos com disputas e vozes altas, como já se viu desde 2015.
Essa análise da situação política revela uma faceta não tão visível, mas crucial: as cidades bolsonaristas. Em 2022, Bolsonaro obteve expressivos resultados no oeste do país, na maior parte do Sudeste e em todo o Sul do Brasil, especialmente em municípios menores. Estes dados, embora agregados, escondem uma realidade complexa nas pequenas cidades, que merece atenção.
As eleições de outubro de 2022 mostraram que muitas localidades no interior de São Paulo e porções do Sul e Sudeste do Brasil continuam a ter um forte viés de apoio a Bolsonaro. O Centro-Oeste e algumas áreas do Norte também demonstraram essa tendência. A predominância do bolsonarismo em cidades menores, especialmente as de São Paulo e da região Sul, é um fenômeno que ainda carece de estudos aprofundados.
Um estudo de Fernando Meireles, pesquisador no Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, apontou que, entre 2018 e 2022, a votação em Bolsonaro migrou de grandes centros urbanos para municípios menores. Em cidades nordestinas e nortistas com menos de 50 mil eleitores, Bolsonaro aumentou sua média em 3 pontos percentuais. Em contraste, nas grandes cidades, especialmente nas capitais do Sudeste, a perda de apoio foi significativa. No entanto, essa perda foi compensada pelo crescimento em áreas interioranas, onde o Auxílio Brasil teve impacto positivo, particularmente no Norte. Essa dinâmica sugere a existência de um fator emocional que atrai a população dos Estados mais ricos para o extremismo bolsonarista.
Características das Pequenas Cidades Brasileiras
Para entender essa dinâmica, é essencial explorar as características das pequenas cidades no Brasil. De acordo com um estudo publicado pelo IBGE em 2017, foi realizada uma classificação dos municípios brasileiros com base na urbanização. Essa classificação distingue entre municípios urbanos e rurais, revelando que mais da metade (54,6%) dos municípios brasileiros são classificados como rurais adjacentes, enquanto apenas 26% são nitidamente urbanos.
Um aspecto interessante é que, entre os 1.225 municípios brasileiros com menos de 5 mil habitantes, a estrutura política local é muitas vezes dominada por uma lógica de mandonismo, conforme explorado pelo antropólogo Moacir Palmeira. Ele destaca que a política em pequenas localidades é marcada por ciclos de domínio, onde um líder local se estabelece, frequentemente contestado por emergentes que buscam espaço na política. Durante períodos eleitorais, a dinâmica torna-se um jogo de lealdades e favores.
Os espaços de negociação política, como bares e farmácias, manifestam a divisão entre as facções políticas locais, que se perpetuam por laços familiares e alianças. Essa prática reafirma que o voto não é apenas uma escolha individual, mas sim uma adesão a uma facção em disputa constante pelo poder local. O que determina essa adesão são relações de parentesco, amizade e os interesses grupais, criando um ambiente onde a troca de favores é comum e o voto consciente, um conceito abstrato, é desconsiderado.
O Contexto Sociopolítico nas Cidades Bolsonaristas
A análise das pequenas cidades bolsonaristas revela uma intrincada teia de relações sociais e políticas. O poder econômico, muitas vezes concentrado nas mãos de elites patriarcais, contribui para uma simbiose entre poder político e econômico. Em mais de 70% dos municípios brasileiros, somente homens concorrem aos cargos locais, refletindo a desigualdade não apenas no espaço político, mas também no econômico.
Nas regiões onde o bolsonarismo se consolidou, como o oeste paulista, a política conservadora se intensificou, alcançando níveis de extremismo. Estudos mostram que locais como Marília e Tupã tornaram-se verdadeiros bastiões do apoio a Bolsonaro, onde o discurso político é amplamente compartilhado por outdoors e manifestações locais, mesmo fora do período eleitoral.
Essa região, marcada pela desigualdade social e pelo controle das elites, é um exemplo do que Moacir Palmeira descreve como uma circularidade de poder e ressentimento. A adesão ao bolsonarismo pode ser vista como uma fuga desesperada das populações mais humildes em busca de ascensão social, mesmo que ilusória. Enquanto isso, os que permanecem em situações de marginalização enfrentam um ambiente político hostil e uma vida marcada por promessas não cumpridas.
A Expectativa para as Próximas Eleições
Com as eleições de 2024 se aproximando, a dinâmica do bolsonarismo nas pequenas cidades permanece em aberto. A resiliência dessas comunidades, moldadas por uma cultura que glorifica o consumo e a ostentação, transcende as fronteiras do simples apoio político. O que se observa é uma luta contínua contra a marginalização e uma busca por identidades que a política tradicional não consegue atender.
Por fim, a questão crucial que se coloca é: como as transformações sociais e políticas impactarão esses pequenos municípios e qual será o papel do bolsonarismo em moldar essa nova realidade? As respostas a essas perguntas podem mudar o rumo das próximas eleições e, consequentemente, o futuro do Brasil.

