Uma Celebração Musical
Recentemente, estive novamente no espetáculo criado por Maria Bethânia para festejar suas seis décadas de trajetória musical. Desde a década de 1970, sou um admirador fervoroso da cantora, e não é preciso muito para reviver suas apresentações, que sempre me encantam.
No sábado, dia 17 de janeiro, o evento teve um significado especial: foi a primeira gravação audiovisual de sua turnê “60 anos de carreira”, que começou em 6 de setembro de 2025, na mesma casa, o Vivo Rio, onde agora chega ao fim. Hoje, no domingo, 18 de janeiro, Bethânia finaliza a turnê com a gravação da apresentação, desta vez diante de uma plateia em pé, enquanto o primeiro dia contou com o público acomodado em mesas.
Estive presente na estreia nacional da turnê e, desde então, venho acompanhando as mudanças no repertório do show. Com a tradição que a artista tem de adaptar suas apresentações, algumas músicas foram cortadas do roteiro audacioso, que não era focado em hits para agradar o público, mas sim em sua essência musical.
Um Roteiro Audacioso com Cortes Surpreendentes
A força de Bethânia no palco sempre vem do seu canto intenso e teatral, que ganha vida na performance ao vivo. Um exemplo dessa força é a gravação recente do samba “Vera Cruz” (2025), que revelou como sua interpretação ao vivo traz ainda mais profundidade à música. A mudança no roteiro trouxe à tona algumas ausências lamentadas, como a canção “Mar e lua” (1980), que foi eliminada para dar espaço a outra faixa de Chico Buarque, “Olhos nos olhos” (1976).
Embora “Olhos nos olhos” seja uma música emblemática na carreira de Bethânia, sua inclusão em vez de “Mar e lua” foi uma escolha que, embora compreensível, levantou críticas. Essa última canção se encaixava melhor no tema do show, mas a relevância histórica de “Olhos nos olhos”, uma canção que ajudou a artista a conquistar popularidade nas emissoras de rádio há 50 anos, não pode ser subestimada.
Na apresentação do dia 17, “Olhos nos olhos” foi a música mais aplaudida, gerando uma reação quase catártica na plateia. Entretanto, especula-se que, fora dos círculos de críticos e dos fãs mais atentos, a troca de “Mar e lua” por “Olhos nos olhos” pode ter sido bem recebida pela maioria do público presente.
A Ausência de Outras Canções
Apesar da inclusão de “Olhos nos olhos”, outras ausências já vinham sendo sentidas, como as canções “Gás neon” (Gonzaguinha, 1974) e “Eu mais ela” (Chico César, 2025), que não ganharam substitutos no repertório. “Eu mais ela” é uma das cinco faixas inéditas do show e a falta de uma gravação ao vivo oficial para essa canção é uma pena, principalmente considerando a potência e renovação que Bethânia trouxe em sua interpretação.
Por outro lado, é lamentável que, mesmo com a intensidade de sua apresentação, o show de 17 de janeiro não tenha alcançado o mesmo brilho da temporada anterior na casa Vivo Rio. A voz da cantora estava afiada, demonstrando seu pleno domínio, mas a energia da apresentação parece ter ficado aquém.
Com a expectativa sobre o show de hoje, onde o público estará em pé, a temperatura promete ser elevada. Resta aguardar para ver como essa apresentação encerrará oficialmente uma turnê memorável que celebra a carreira de uma das maiores artistas da música brasileira.

