Uma Experiência Teatral Que Provoca Reflexões Sobre a Condição Humana
Após uma bem-sucedida temporada no Rio de Janeiro, o monólogo ‘CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente’ desembarca em São Paulo nesta sexta-feira (30 de janeiro), no Teatro FAAP. Sob a direção de Gerald Thomas e protagonizado por Danielle Winits, o espetáculo oferece uma proposta teatral afiada e provocadora.
Mas a pergunta que não quer calar é: drama ou comédia? A resposta, conforme sugere a própria peça, depende inteiramente da perspectiva de cada espectador. Escrito por Jane Wagner, o solo transforma o que à primeira vista se apresenta como uma busca por inteligência extraterrestre em uma crítica poderosa sobre o caos da vida contemporânea.
No exterior, ‘Procurando Sinais de Vida Inteligente no Universo’ se tornou uma referência no teatro, imortalizada pela atuação solo da atriz Lily Tomlin. A versão brasileira, rebatizada por Thomas, mantém o espírito crítico e bem-humorado do texto original, simultaneamente incorporando as lacunas deixadas pelas transformações sociais, culturais e tecnológicas das últimas quatro décadas.
Estruturada como um monólogo múltiplo, a peça junta em uma única personagem diferentes vozes da obra original. A interpretação de Danielle Winits é a chave para essa narrativa fragmentada, que apresenta uma série de questionamentos sobre padrões sociais, a lógica capitalista e a superficialidade da cultura de massas.
Durante o desenrolar da trama, as observações da personagem, muitas vezes absurdas, oscilam entre o riso e o desconforto, convidando o público a se reconhecer nas contradições que emergem em cena. A visão de Gerald Thomas expande o alcance do texto, inserindo reflexões que não estavam presentes em 1985. O diretor menciona que vivemos em um mundo hoje marcado pela troca de amigos por seguidores, pela banalização da fama e por uma cultura do apagamento.
“Se antes temíamos Huxley e Orwell, atualmente enfrentamos uma epidemia de influenciadores e uma era de desaprendizado”, observa Thomas, aludindo a um cenário onde redes sociais e inteligência artificial redefinem valores e percepções.
No centro desta montagem, a protagonista, descrita por Winits como uma ex-consultora criativa que abandona a racionalidade corporativa para se tornar catadora de lixo, acredita estar em contato com extraterrestres que buscam entender se ainda existem sinais de vida inteligente na Terra. Paralelamente, ela tenta descobrir quem somos, nós, habitantes de um mundo repleto de estímulos e contradições.
A dúvida que permeia a narrativa — ‘loucura ou lucidez extrema?’ — ecoa um dilema existencial atemporal, atualizado à luz do absurdo contemporâneo. O texto, habilmente equilibrado entre ironia e compaixão, mescla referências pop e filosóficas, evitando discursos rasos. A crítica social emerge da vivência em cena, do confronto direto com a realidade que nos cerca.
O espetáculo também apresenta um forte componente de metateatro: ‘CHOQUE!’ reflete sobre a própria essência do teatro e sua capacidade de provocar questionamentos, exigindo do público uma atenção ativa e sensível. Esteticamente, a montagem é construída em um ambiente simbólico e mutável.
A cena inicial, por exemplo, se passa sobre uma montanha de lixo, de onde a atriz parece emergir. Ao fundo, cinco escadas conectam o palco a um urdimento que se perde em uma altura aparentemente infinita. Elementos da pop art de Andy Warhol, como latas de sopa Campbell’s, aparecem no cenário, assim como referências aos objetos do cotidiano como geladeiras, post-its e carrinhos de supermercado, dialogando com a cultura consumista.
A imagem de Danielle Winits também se integra ao espaço cênico, surgindo em uma das pinturas, retornando de forma ampliada, quase grotesca, como um objeto manipulado por uma figura peculiar. O cenário apresenta um contraste entre escalas, texturas e atmosferas: o vibrante estilo pop convive com tons terrosos e superfícies deterioradas, evocando o desgaste do tempo.
Tecidos suspensos, amarrados por cordas, flutuam como se fossem peles em um curtume, enquanto o piso do palco, feito de espumas e tecidos tingidos, cria relevos instáveis e orgânicos. ‘CHOQUE! Procurando Sinais de Vida Inteligente’ é uma obra vibrante, multifacetada e radicalmente atual. Mais do que apenas um espetáculo de crítica social, a peça se destaca como uma reflexão sensível e inquietante sobre o que ainda nos torna humanos e sobre os raros, porém fundamentais, sinais de inteligência que perduram no afeto e na empatia.
Para fãs de grandes produções teatrais, vale a pena lembrar que ‘Dois de Nós’ também está de volta a São Paulo, apresentando um elenco renomado e experiência nos bastidores.

