O Impacto da Genética na Resposta ao Tratamento da Esclerose Múltipla
A esclerose múltipla é uma doença autoimune crônica que afeta o sistema nervoso central, impactando diretamente tanto o cérebro quanto a medula espinhal. No Brasil, estima-se que cerca de 15 pessoas a cada 100 mil habitantes vivam com essa condição. O problema ocorre quando o sistema imunológico ataca as estruturas do sistema nervoso, causando inflamações e lesões que prejudicam a comunicação entre os neurônios.
Os sintomas da esclerose múltipla variam bastante entre os indivíduos e podem incluir desde alterações na visão e fraqueza muscular até problemas de equilíbrio, fadiga intensa e dificuldades cognitivas, como lapsos de memória e atenção. Embora existam tratamentos disponíveis, a resposta a eles pode ser bastante diferente de um paciente para outro, um fenômeno que se tornou o foco de uma pesquisa realizada na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Por que os Medicamentos Têm Efeitos Variáveis?
A esclerose múltipla, que ainda não possui cura, conta com tratamentos que visam diminuir a atividade das lesões detectadas por ressonância magnética, reduzir a frequência dos surtos e prevenir a neurodegeneração. Esses tratamentos, conhecidos como terapias modificadoras do curso da doença (DMT), atuam modulando a resposta imunológica para frear a inflamação.
Atualmente, há várias opções de tratamento, sendo o natalizumabe um dos mais prescritos. Apesar de sua eficácia comprovada, a resposta a este medicamento pode variar bastante entre os pacientes. Enquanto alguns conseguem um controle adequado da doença, outros continuam a ter surtos e sintomas que dificultam suas atividades diárias, mesmo com a adesão ao tratamento.
Compreender as razões por trás dessa discrepância é um dos maiores desafios enfrentados atualmente na pesquisa sobre a esclerose múltipla. O estudo realizado na Uerj busca exatamente responder a essa questão, analisando a possibilidade de que a genética dos pacientes influencie a eficácia dos tratamentos.
A Genética e a Resposta aos Medicamentos
O estudo se concentrou em investigar como as diferenças genéticas entre os pacientes poderiam estar relacionadas à maneira como eles respondem ao tratamento. Essas variações no DNA podem afetar a absorção, distribuição, metabolização e interação dos medicamentos com o sistema imunológico, um campo de pesquisa conhecido como farmacogenética.
A farmacogenética busca explicar por que um mesmo medicamento pode ter efeitos diferentes em indivíduos distintos. Essa abordagem é parte da medicina de precisão, que busca personalizar os tratamentos de acordo com as particularidades de cada paciente, em vez de adotar uma abordagem única para todos.
Uma Abordagem Multidisciplinar para a Pesquisa
A pesquisa foi realizada no Laboratório de Neurofarmacogenética da Uerj e contou com uma equipe multidisciplinar composta por neurologistas, farmacêuticos, biomédicos e estudantes de graduação e pós-graduação da área da saúde. A diversidade de especializações foi essencial para integrar a prática clínica, a pesquisa experimental e a análise genética de forma coesa.
O estudo é fruto da dissertação de mestrado da aluna Rafaella Cardoso, desenvolvida no Programa de Pós-graduação em Fisiopatologia Clínica e Experimental da Uerj, e contou com a colaboração do aluno Matheus Matos, refletindo o caráter colaborativo e inovador do projeto.
Dados e Metodologia da Pesquisa
Os pacientes foram acompanhados em dois hospitais universitários de referência no Rio de Janeiro: o Hospital Universitário Pedro Ernesto (Uerj) e o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho (UFRJ). Esses centros, parte do Sistema Único de Saúde (SUS), oferecem uma significativa relevância social ao estudo, refletindo a realidade da população atendida na rede pública.
A pesquisa incluiu a participação voluntária dos pacientes, que realizaram uma coleta simples de sangue durante consultas de rotina. As amostras foram analisadas para identificar moléculas que atuam no sistema imunológico, além da extração e genotipagem do DNA.
Resultados e Implicações
No estudo, foram analisadas duas variantes genéticas em genes responsáveis pela codificação de receptores Fc-gama (FCGR2A e FCGR3A), que desempenham papéis fundamentais na resposta imunológica. A pesquisa envolveu 116 pacientes em tratamento com natalizumabe, revelando que certas combinações genéticas estão ligadas a um menor risco de falha no tratamento. Por outro lado, perfis genéticos diferentes foram associados a uma resposta inadequada ao medicamento.
Além disso, as variações genéticas se relacionaram a diferenças nos níveis de moléculas inflamatórias no sangue, sugerindo mecanismos biológicos que podem ajudar a explicar as distintas respostas aos tratamentos. Vale ressaltar que a genética não age sozinha; fatores clínicos, características pessoais e influências ambientais também têm um papel crucial na resposta ao tratamento.
Futuro da Pesquisa em Esclerose Múltipla
O investimento em pesquisa científica é fundamental para o avanço do conhecimento e fortalecimento do SUS, e essa pesquisa se destacou por ser o primeiro estudo de farmacogenética em esclerose múltipla no Brasil. O projeto representa um marco significativo para a pesquisa nacional e reforça a importância de considerar a diversidade genética da população brasileira.
O grupo de pesquisa continua a explorar outras variantes genéticas que possam impactar a resposta ao natalizumabe e está desenvolvendo modelos animais para aprofundar a compreensão dos mecanismos biológicos envolvidos. Esses avanços poderão contribuir para previsões mais precisas sobre quem poderá responder melhor ao tratamento, além de permitir ajustes nas doses e estratégias terapêuticas de forma mais personalizada, aproximando cada vez mais a ciência da prática clínica.

