A Transformação do Carnaval
O carnaval do Rio de Janeiro sempre foi um espaço de criatividade e expressão cultural, mas nos últimos dez anos, essa festa popular passou por uma transformação profunda e silenciosa. Em meio a desafios financeiros enfrentados pelas escolas de samba e a crise dos enredos patrocinados, houve uma mudança significativa nas narrativas apresentadas durante os desfiles. As agremiações começaram a investir em enredos que buscam conectar-se mais intensamente com as questões culturais e sociais do Brasil.
Essa mudança é central no novo lançamento do livro “Para tudo começar na quinta-feira: o enredo dos enredos” (Ed. Mórula), escrito por Luiz Antonio Simas e Fábio Fabato. A obra, que será relançada em um evento no Baródromo, às 18h30 da próxima terça-feira (27), chega a seu 10º aniversário com uma versão revisada e ampliada.
A Mudança de Paradigma em 2016
Considerada uma referência no estudo dos enredos das escolas de samba, a obra dos autores marca um ponto de inflexão a partir de 2016. Segundo eles, essa data é crucial, pois representa o abandono da lógica de promoção de marcas e o início de uma nova era focada na expressão cultural.
Fabato explica que “é quando os enredos deixam de lado a lógica do carnamarketing e começam a priorizar uma maior densidade cultural”.
Uma Nova Geração em Ascensão
O ano de 2016 não apenas trouxe uma nova abordagem nos enredos, mas também simbolizou uma troca de gerações na liderança criativa das escolas de samba. Carnavalescos renomados, como Renato Lage, Rosa Magalhães e Max Lopes, começaram a dividir espaço com novas vozes que, desde jovens, observaram a festa e agora têm espaço para brilhar.
Um marco dessa transição foi a estreia de Leandro Vieira no Grupo Especial, que imediatamente conquistou o título com a verde e rosa Mangueira, levando para a avenida um enredo em homenagem à lendária cantora Maria Bethânia. Esse triunfo abriu portas para outros talentos como Leonardo Bora, Gabriel Haddad e Tarcisio Zanon, que começaram a assinar projetos autorais e a competir por títulos nas principais escolas de samba.
Fabato ressalta: “Estamos testemunhando um rito de passagem evidente, onde novos artistas duelam com seus ídolos, e um estreante se consagra campeão na elite do carnaval”. Todos esses profissionais foram influenciados pelos ensinamentos de mestres como Joãosinho Trinta, Renato Lage e Rosa Magalhães, permitindo que aplicassem as lições adquiridas ao longo da trajetória.
Criatividade em Tempos de Crise
A nova edição do livro também faz um paralelo entre essa metamorfose estética e as dificuldades financeiras que as escolas de samba enfrentaram. Com cortes nas subvenções públicas e uma escassez geral de patrocinadores, as agremiações se viram obrigadas a reinventar suas narrativas.
Fabato observa que, diante dos cortes orçamentários, as escolas adotaram uma abordagem que elevou a densidade cultural dos temas abordados nas avenidas, realçando personagens e aspectos fundamentais da folia.
Simas complementa: “As escolas de samba não existem como conchas isoladas do mundo exterior. Elas refletem e se alimentam das pautas da cidade e do país, em um processo histórico de adaptação e negociação para se manterem vivas”.
Enredos em Constante Evolução
De acordo com os autores, o quesito enredo nunca se torna estático, acompanhando as transformações sociais, políticas e culturais do Brasil. “Não existe um produto final para o quesito enredo. Ele deve ser constantemente atualizado, refletindo as variações do meio ambiente ao longo das décadas”, afirma Simas.
Uma Primavera Temática no Carnaval
Na visão de Simas e Fabato, o momento atual representa uma verdadeira “primavera temática” para o carnaval carioca, caracterizada pela diversidade de personagens e narrativas. Essa tendência, segundo eles, se mantém firme nos enredos que já estão sendo preparados para os próximos anos.
“É impressionante perceber que saberes antes marginalizados, há um século, agora são considerados credenciais brasileiras”, aponta Simas.
Homenagem aos Pioneiros do Carnaval
A nova edição do livro presta uma homenagem especial a Fernando Pamplona, considerado o pai dos carnavalescos modernos, que completaria 100 anos em 2026. A obra traz ilustrações de capa e miolo de sua autoria, que se tornaram parte central da narrativa histórica do carnaval. Além disso, o volume inclui textos de figuras importantes do cenário carnavalesco, como Milton Cunha, que assina o prefácio da nova edição, além de contribuições de Rosa Magalhães, Rachel Valença e João Gustavo Melo.

