Uma Celebração da Dança e da História
Os Guerreiros do Passo, renomado grupo de dança de Recife, desembarcam no Rio de Janeiro nesta sexta-feira, prontos para levar a energia do frevo ao CasaBloco, festival que acontecerá no Jockey Club. Este evento marca a primeira apresentação do grupo na cidade, após o sucesso no Festival de Cannes, onde o filme “O agente secreto”, do diretor Kleber Mendonça Filho, foi lançado. Para o cineasta, a viagem foi não apenas uma oportunidade de divulgar seu trabalho, mas também um momento de reflexão: ‘Vou perder o carnaval’, lamenta ele, enquanto planeja novos projetos cinematográficos.
Eduardo Araújo, fundador e diretor dos Guerreiros do Passo, compartilha a rica trajetória do frevo, que nasceu como uma dança popular, inicialmente disfarçada de capoeira para evitar repressões. ‘O frevo vai além do movimento; ele é um encontro do povo, uma celebração que acontece nas ruas durante o carnaval’, explica Araújo, enfatizando a importância cultural da dança.
A Experiência do Frevo no CasaBloco
Com uma admiração profunda pelo Rio, que também possui uma forte cultura de carnaval de rua, os Guerreiros do Passo se preparam para oferecer uma nova perspectiva do frevo. ‘Embora o frevo seja conhecido por seu colorido vibrante e movimentos ágeis, trazemos uma abordagem que enfatiza sua história, suas origens nas camadas populares e os elementos que contribuíram para sua evolução cultural’, detalha Araújo. A apresentação contará com a participação do maestro Spok e sua orquestra, que também se apresentarão no festival, trazendo um toque especial ao evento.
O grupo se destaca não apenas pela performance, mas também pela formação de seus dançarinos. Com idades variando entre 40 e 50 anos, todos são professores com vasta experiência no frevo, incluindo um mestre de capoeira. Seus figurinos refletem o povo nas ruas, evocando a essência das agremiações carnavalescas do passado.
Resgatando os Passos Históricos do Frevo
Nomes tradicionais dos passos do frevo, como tesoura, ferrolho e chave de cano, são resgatados através do trabalho dos Guerreiros do Passo. ‘Buscamos compreender a origem desses movimentos que começaram a ser moldados em 1920’, afirma Lucélia Albuquerque, passista e professora do grupo. O uso do guarda-chuva, que simboliza a origem do frevo, é um exemplo de como o grupo mantém viva a tradição, mesmo que em uma forma diferente.
A relação do grupo com Kleber Mendonça Filho se fortaleceu quando ele os incluiu em seu filme “Retratos fantasmas”. A participação deles em “O agente secreto” foi uma grande honra e uma oportunidade inesperada, culminando em um momento emocionante no Festival de Cannes. ‘Nunca tínhamos viajado de avião antes, e ver a nossa cultura sendo reconhecida em um palco tão importante nos deixou emocionados’, recorda Araújo. A recepção calorosa do público e a cobertura da mídia foram surpresas que tornaram a experiência ainda mais especial.
A Nova Visão do Frevo
Kleber Mendonça expressa admiração pelo trabalho dos Guerreiros do Passo, ressaltando como a imagem do frevo foi frequentemente comercializada de maneira superficial. ‘O frevo que conhecemos tem cores vibrantes e dançarinos sorridentes, mas minha memória de infância é de uma dança mais crua, onde a tensão social era palpável’, reflete o diretor. Os Guerreiros do Passo, com sua abordagem dramática, trazem à tona uma narrativa que resgata as origens e as lutas de um Brasil que, por muitos anos, marginalizou expressões culturais como a capoeira.

