O Crescimento da Interiorização Industrial
Com a formação em engenharia de produção pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Letícia Lemos Martins não imaginava retornar a Passos, sua cidade natal no Sul de Minas, com uma população de aproximadamente 112 mil habitantes, conforme o último Censo. “Sempre pensei que viveria em um grande centro, arrumaria um emprego promissor e ficaria por lá. Voltar para Passos não era parte dos meus planos, mas eu tinha vontade, pois toda a minha família está aqui”, relata Letícia, que agora, aos 26 anos, se vê em uma nova realidade.
A virada em sua trajetória aconteceu com a notícia da inauguração de uma nova fábrica da Heineken em sua cidade. Com um investimento de R$ 2,5 bilhões e aberta em novembro de 2025, a cervejaria gerou mais de 2,2 mil empregos durante a construção e atualmente emprega 350 pessoas. “Queria trabalhar em uma multinacional, um sonho comum para engenheiros de produção. A oportunidade de voltar para casa surgiu, e eu a agarrei com todas as forças”, comenta Letícia.
A história de Letícia reflete um fenômeno crescente na indústria brasileira: a interiorização. Dados do governo federal mostram que em 1985, dois terços dos empregos do setor estavam concentrados em capitais e regiões metropolitanas, enquanto apenas um terço se encontrava no interior. Em 2022, a situação se inverteu, e 54,4% dos empregos industriais brasileiros foram alocados em áreas interiores. Essa mudança levou a uma crescente presença da indústria fora dos grandes centros urbanos.
Desindustrialização e Neoindustrialização
Segundo um estudo do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus/USP), a transição da indústria para o interior começou a se acentuar em 2014 e tem se fortalecido a cada ano. Economistas como Paulo Morceiro e Milene Tessarin analisaram dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e revelaram que a participação da indústria na formalização de empregos no Brasil caiu de 27,7% em 1986 para 15,1% em 2022.
Esse movimento de desindustrialização ocorreu em duas fases distintas. A primeira, mais intensa, ocorreu entre 1986 e 1998, influenciada pela queda dos investimentos públicos em infraestrutura e a hiperinflação que inibiu os investimentos empresariais. A segunda fase, menos acentuada, se iniciou após a crise financeira global de 2008 e foi marcada por baixo crescimento econômico e aumento da concorrência internacional, especialmente da China.
Fatores que Impulsionam a Interiorização
O economista Morceiro destaca que a crescente concentração populacional e a superlotação de áreas urbanas elevaram os custos operacionais das indústrias, levando muitas delas a buscar regiões menos concorridas. “Os preços de terrenos e galpões industriais se tornaram exorbitantes, e o custo de vida nas capitais aumentou consideravelmente. Isso, combinado com a carga tributária, tornou a operação nessas áreas menos viável”, explica.
O caso da montadora chinesa GWM ilustra essa tendência. A empresa inaugurou uma nova fábrica em Iracemápolis, no interior paulista, após adquirir uma planta anteriormente pertencente à Mercedes-Benz. Com um investimento previsto de R$ 10 bilhões até 2032, a GWM espera criar de 800 a mil empregos.
Desafios e Oportunidades no Setor Industrial
Por outro lado, a chamada “guerra fiscal”, em que Estados e municípios oferecem isenções de impostos para atrair empresas, também tem seu papel. Em Passos, a Heineken teve a isenção de cerca de R$ 90 milhões em tributos municipais por até 15 anos. A GWM também recebeu incentivos para se estabelecer em Iracemápolis, demonstrando como as políticas locais influenciam a realocação da indústria.
Apesar do crescimento da indústria no interior, Morceiro alerta que a interiorização não é uma solução para a desindustrialização em larga escala. Os dados mostram que os Estados mais industrializados, como São Paulo e Rio de Janeiro, são responsáveis por 92,9% da desindustrialização do Brasil, enquanto os Estados emergentes da agroindústria, como Goiás e Mato Grosso, têm contribuído apenas modestamente para reduzir esse processo.
Implicações para o Futuro da Indústria
Para estimular a indústria nacional, especialistas propõem a modernização dos parques industriais, o que requer condições favoráveis de investimento. A taxa de juros elevada, atualmente em 15%, representa um desafio significativo, dificultando o acesso a crédito para inovações tecnológicas. Cagnin sugere que, além de reduzir custos, é essencial melhorar a logística, energia e transporte para conectar os novos polos industriais de forma mais eficiente.
Gabriele, funcionária da nova fábrica em Iracemápolis, expressa a esperança de que a indústria continue a crescer: “Muitas pessoas querem estar aqui, mas é difícil. Um trabalho confortável e bem remunerado é uma oportunidade que não podemos deixar passar”. A história dela é um reflexo do impacto positivo que a interiorização pode ter na qualidade de vida e nas oportunidades de emprego no Brasil.

