A Acadêmicos de Niterói e sua Estreia Marcante
O Carnaval de 2026 promete ser um marco na história das escolas de samba, especialmente para a Acadêmicos de Niterói, que fará sua debut no Grupo Especial com um enredo ousado: “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”. O desfile está agendado para o domingo, 15 de fevereiro, e faz parte de um contexto político pouco comum, onde um presidente no exercício do cargo se torna tema central na Sapucaí. A última vez que isso aconteceu foi em 1932, quando a ancestral Deixa Falar fez menção a Getúlio Vargas.
Wallace Palhares, presidente da Acadêmicos de Niterói e professor de História, destaca a importância de se homenagear o presidente: “Já tinha passado da hora de o presidente ser homenageado”. No entanto, a escola, que foi fundada há apenas oito anos, enfrenta o desafio de se consolidar entre as gigantes do carnaval carioca, enquanto mantém uma equipe jurídica para garantir que sua apresentação esteja em conformidade com as leis eleitorais.
Desafios Jurídicos e a Legislação Eleitoral
De acordo com Alberto Rollo, advogado especializado em legislação eleitoral, não há impedimentos legais para que a escola apresente a biografia do presidente durante o desfile. “Podem contar a vida dele toda”, afirma Rollo, ressaltando que o artigo 36-A da Lei Eleitoral proíbe apenas pedidos explícitos de voto. No entanto, o advogado alerta sobre a possibilidade de ‘propagandas implícitas’, que poderiam levar a multas se alguém da escola for flagrado promovendo um discurso político.
Em um contexto mais amplo, o TSE (Tribunal Superior Eleitoral) já manifestou que não permitirá censura prévia nos desfiles, mesmo que um adversário político solicite a análise antecipada das alegorias. A própria corte refutou a possibilidade de proibição de quaisquer elementos do desfile. Palhares acredita que a discussão sobre a presença de Lula na Sapucaí é menos relevante do que o próprio enredo e a homenagem que a escola está prestando.
Outras Participações e Mobilização Política
No mesmo Carnaval, o partido União Brasil, representado pelo presidente nacional Antonio Rueda, também estará presente, desfilando com a Inocentes de Belford Roxo. O enredo desta escola, chamado “O sonho de um tal pagode russo nos frevos do meu Pernambuco”, não menciona explicitamente Lula, mas busca explorar a cultura pernambucana. Rueda é aliado de Márcio Canella, prefeito de Belford Roxo, e a estratégia é usar o carnaval para angariar votos.
A Acadêmicos de Niterói, ao contrário, traz um samba-enredo que retrata a infância humilde de Lula em Pernambuco até sua ascensão como líder mundial. Com participação de renomados compositores da cena cultural, como Teresa Cristina e André Diniz, a música promete ser um forte atrativo durante o desfile.
Expectativas para o Desfile
Recentemente, a escola fez uma demonstração de seu samba durante os ensaios técnicos do Grupo Especial, e a recepção foi calorosa. Faixas com mensagens de apoio a Lula e imagens do presidente da época dos anos 1980 foram vistas entre os integrantes e o público. Apesar de não contarem com fantasias extravagantes, os componentes incorporaram referências a classes trabalhadoras e à ascensão social em seu espetáculo.
Apesar das notícias sobre uma possível captação de R$ 15 milhões via Lei Rouanet, Palhares esclarece que a escola conseguiu apenas R$ 5 milhões, mas não terá tempo hábil para utilizar esses recursos. Os fundos para o desfile virão principalmente das prefeituras e de vendas de ingressos, totalizando cerca de R$ 12 milhões.
Embora a primeira-dama Janja e a família de Lula tenham confirmada presença, sua participação como homenageado permanece incerta. A segurança do presidente e a possibilidade de vaias por parte da oposição são preocupações que levaram a especulações sobre sua ausência na Avenida. Ademais, um deputado da oposição já questionou a legalidade da transferência de verbas da Embratur para a escola de samba.

