Uma Análise Profunda da Canção
Considerada por Chico Buarque como “o samba mais bonito do mundo”, “Águas de março” continua a fascinar e desafiar ouvintes e estudiosos. O livro “Águas de março — Sobre a canção de Tom Jobim”, que será lançado neste sábado (28) às 11h na Casa de Francisca, em São Paulo, traz à tona três ensaios que se complementam: “Mestre de obras, obra de mestre” (2000) de Augusto Massi; “O samba mais bonito do mundo” (2004) de Arthur Nestrovski; e “A construção de ‘Águas de março’” de Walter Garcia, cuja primeira versão é de 2010.
O lançamento não apenas reune essas obras, mas também conta com uma apresentação de Milton Ohata e reproduz dois depoimentos de Tom Jobim, além de fotografias do maestro em Poço Fundo, onde a canção foi criada em março de 1972. O volume é uma rica contribuição para a compreensão da obra de Jobim, que permanece relevante e complexa.
A Nova Versão de Walter Garcia
Walter Garcia, único autor a atualizar seu trabalho, é violonista, compositor e professor na Universidade de São Paulo (USP). Ele é conhecido por obras como “Bim bom: a contradição sem conflitos de João Gilberto”. Em seu ensaio, Garcia traça um paralelo entre “Águas de março” e “Construção”, canção lançada por Chico Buarque pouco antes e que, segundo ele, reflete um contexto histórico sem se limitar a ele. Ele desafia a visão de que a música é apenas um jingle das classes mais favorecidas ou uma representação turística do Rio de Janeiro.
Por que Revisitar ‘Águas de março’?
Ao ser questionado sobre a motivação para revisar seu ensaio, Garcia explica que, como músico, sente a necessidade de reinterpretação contínua. Cada vez que uma canção é tocada, algo novo emerge. Isso também ocorre em sala de aula, onde discussões sobre música e crítica possibilitam novas percepções. A nova versão de “A construção de ‘Águas de março’” inclui insights de Otto Filho, que destacou a conexão entre os versos de Jobim e os de Sidney Miller, revelando uma intertextualidade rica e instigante.
Influências Recíprocas entre Composições
Garcia também investiga como “Construção” pode ter influenciado “Águas de março”. A ligação foi inicialmente mencionada por Paulo Jobim, filho de Tom, em uma entrevista, e corroborada por Helena Jobim em seu livro sobre o irmão. Embora não seja possível afirmar com certeza a influência direta, Garcia identifica paralelos que enriquecem a análise das obras.
A Letra e o Contexto Social
Ao questionar se a letra de “Águas de março” reflete o clima da época da ditadura, Garcia cita Manuel Bandeira: “Estou convencido de que homem nenhum pode ser inatual.” Para ele, a canção captura o estado emocional de um sujeito que oscila entre a desintegração e a construção de novas realidades. As imagens que Jobim evoca, como “vento ventando” e “chuva chovendo”, são simultaneamente efêmeras e eternas, representando um Brasil em transformação.
Desmistificando a Imagem de Jobim
Garcia argumenta que a percepção comum de “Águas de março” como uma obra voltada para elites sociais ignora sua profundidade. A canção aborda temas como a vida e a morte, a destruição e a esperança, que vão além de um mero apelo comercial ou turístico. A interpretação de Jobim no álbum “Matita perê”, lançado em 1973, reflete essa sobriedade e seriedade ao abordar a fragilidade da vida.
O Motivo Contínuo em ‘Águas de março’
Estudando a estrutura musical de “Águas de março”, Garcia observa que sua organização é um tipo de moto-contínuo. Essa característica provoca uma sensação de fluidez tanto para quem canta quanto para quem escuta, proporcionando uma experiência imersiva. Especialmente na interpretação de João Gilberto, a música cria uma sensação de redemoinho, levando o ouvinte a flutuar entre os versos sem saber exatamente em que ponto se encontra.
Complexidade e Simplicidade na Obra de Jobim
Por fim, ao analisar a relação entre simplicidade e complexidade em “Águas de março”, Garcia afirma que essa dualidade é uma marca registrada de muitas das melhores canções da música popular brasileira. Embora não se possa afirmar que todas as obras de Tom Jobim apresentem essa fusão, é indiscutível que suas composições têm impacto duradouro e profundo.

