América Latina como Refúgio para Investidores
Os mercados da América Latina estão se afirmando como um ponto seguro para investidores que buscam alternativas em um cenário global marcado pela volatilidade. Impulsionados por exportadores de petróleo e a redução da exposição a tensões no Oriente Médio, os ativos da região estão despertando o interesse de quem atua nos mercados emergentes.
Desde o início do conflito no Irã, moedas latino-americanas, como o real brasileiro e o peso argentino, têm se valorizado frente ao dólar, destacando-se entre as poucas moedas emergentes a apresentar essa alta. Além disso, títulos em dólar de países ricos em petróleo, como Equador e Colômbia, se destacam pelo bom desempenho no período, assim como a dívida em moeda local da Colômbia.
O recente fracasso nas negociações de paz entre Estados Unidos e Irã deve pressionar o mercado e aumentar a procura por ativos considerados seguros nesta segunda-feira. A incerteza sobre a manutenção do cessar-fogo firmado na semana passada faz com que muitos traders apostem na resiliência das posições na América Latina diante de diversos cenários geopolíticos.
Anthony Kettle, gerente sênior de portfólio de mercados emergentes na RBC BlueBay em Londres, afirmou: “Nossas apostas de maior convicção têm se concentrado na América Latina, especialmente em Argentina e Colômbia. Estamos focando em soberanos e empresas que podem se beneficiar, ou que ao menos mostrem resiliência, com os preços elevados de energia”.
Perspectivas de Investimento na Região
Jack McIntyre, que supervisiona cerca de US$ 44 bilhões em ativos globais de renda fixa na Brandywine Global Investment Management, compartilha de uma visão otimista. Ele mantém uma posição overweight em ativos de mercados emergentes, priorizando a América Latina. “Essa região tem tudo para se beneficiar da diversificação das fontes de energia por nações asiáticas e também de um renovado interesse por parte dos Estados Unidos”, disse McIntyre, ressaltando sua preferência por títulos em moeda local.
O alinhamento político de alguns líderes sul-americanos com o governo anterior dos Estados Unidos influencia as estratégias dos gestores de portfólio. A captura de Nicolás Maduro, na Venezuela, e a pressão sobre Cuba são movimentos que devem impactar os mercados de crédito na região. Além disso, a América Latina apresenta algumas das maiores taxas de juros reais do mundo, tornando-se um destino atraente para operações de carry trade, onde investidores tomam empréstimos em moedas de baixo juros e investem em ativos com retornos superiores.
Desempenho das Ações e Commodities
As ações latino-americanas também têm se destacado em comparação com outros mercados emergentes. Um índice MSCI de ações da região acumula alta de aproximadamente 3% desde o início do conflito, enquanto o indicador geral de ações de países em desenvolvimento sofreu perdas na casa de 4%. De acordo com Jonathan Fortun, economista sênior do Institute of International Finance, mesmo com saídas negativas de aproximadamente US$ 2,2 bilhões em dívida, as ações atraíram US$ 1,4 bilhão, o que sugere que o suporte das commodities e o apelo relativo do carry trade continuam a sustentar o mercado latino-americano.
As saídas da América Latina foram inferiores a US$ 1 bilhão de um total de US$ 70 bilhões retirados de ativos de mercados emergentes em março, conforme dados da organização. Apesar desse panorama alentador, existem vulnerabilidades. As altas taxas de juros no Brasil têm pressionado os balanços corporativos, e a instabilidade nas eleições presidenciais pode impactar negativamente o cenário econômico em vários países. Recentemente, a Colômbia teve sua nota de crédito rebaixada, gerando preocupações fiscais, enquanto o Chile, dependente de energia, viu sua moeda e títulos perdendo valor.
Desafios e Oportunidades na Região
Katrina Butt, gestora de portfólio de dívida em mercados emergentes na AllianceBernstein, comentou sobre a situação: “Há vencedores e perdedores na região. Os preços do petróleo devem permanecer altos mesmo com o cessar-fogo, favorecendo os exportadores de petróleo, como Colômbia, Argentina e Panamá”. No início do mês, o Fundo Monetário Internacional alertou que os mercados emergentes estão mais suscetíveis a oscilações no sentimento global de risco, especialmente devido à maior dependência de financiamentos de instituições não bancárias.
Embora o desmonte de posições de hedge tenha gerado uma elevação acentuada na classe de ativos, Kettle, da RBC BlueBay, adota uma postura cautelosa quanto a investimentos de longo prazo, aguardando indicadores mais claros sobre a estabilidade do cessar-fogo e uma possível desescalada das tensões. “Um dos pontos-chave observados nas últimas semanas é que choques geopolíticos criam uma dispersão significativa dentro dos mercados emergentes”, concluiu.

