Pesquisas Revelam Uso de Substâncias entre Grávidas
Uma pesquisa inédita realizada pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA) trouxe à tona um dado preocupante: aproximadamente 8,5% das gestantes atendidas na unidade admitiram ter consumido maconha ou cocaína nas semanas que antecederam o parto. O estudo, que abrangeu cerca de 250 partos mensais, revelou que, dos 2.754 testes de urina realizados, 124 apresentaram resultado positivo para cocaína, o que corresponde a 4,5%, enquanto 112 gestantes testaram positivo para maconha, representando 4% do total.
O levantamento, iniciado em 2022, totalizou quase 23 mil exames de urina, revelando um aumento significativo no consumo de substâncias entre grávidas. O percentual de usuárias subiu de 6,8% no primeiro ano, com 2,9% de consumo de cocaína e 3,9% de maconha. A pesquisa foi coordenada pelos Serviços de Pediatria, Ginecologia e Obstetrícia, Serviço Social e Psiquiatria de Adições, em colaboração com o Comitê de Bioética do hospital, que planeja publicar os resultados em uma revista científica.
A Importância do Pré-natal e os Desafios da Investigação
A coordenadora de Saúde Mental do HCPA, Lisia von Diemen, destaca que a testagem de substâncias por meio de exames de urina não é um protocolo comum recomendado pelas autoridades de saúde. Segundo Lisia, essa avaliação deveria ser parte integrante do pré-natal, com orientações para que os médicos indaguem as gestantes sobre o consumo de álcool e outras drogas.
“Observamos que a investigação durante o pré-natal é frequentemente negligenciada. Quando é feita, o consumo costuma ser sub-referido, devido ao constrangimento das mulheres em relatar seu uso e à falta de formação adequada dos profissionais para abordar esses temas”, explicou Lisia. O levantamento realizado pelo HCPA se destaca por ser um dos primeiros do tipo no Brasil e, em algumas situações, até mesmo no exterior.
A Evolução dos Dados e Tendências Preocupantes
Lisia aponta que, no início do protocolo, em janeiro de 2022, a prevalência de maconha entre as gestantes era maior do que a de cocaína, algo esperado, uma vez que a maconha é mais comum e seus metabólitos permanecem por mais tempo na urina. No entanto, os dados mais recentes mostram uma mudança alarmante: a proporção de testes positivos para cocaína cresceu consideravelmente, ultrapassando a de maconha no último ano do levantamento.
Esses dados são um alerta para o sistema de saúde sobre a necessidade de reforçar a investigação e a assistência às gestantes, visando promover um pré-natal mais seguro. A detecção precoce do uso de substâncias pode auxiliar na implementação de estratégias de apoio e tratamento, contribuindo para a saúde e o bem-estar tanto das mães quanto dos bebês.
O estudo do HCPA levanta questões cruciais sobre a saúde pública e a proteção das gestantes, ressaltando a urgência de ações educativas e preventivas. A conscientização sobre os riscos do consumo de substâncias durante a gravidez pode não apenas salvar vidas, mas também promover um ambiente mais saudável para o desenvolvimento das futuras gerações.

