Violência nas Instituições de Ensino
Recentemente, dois episódios distintos têm exposto as profundas vulnerabilidades do sistema educacional no Brasil, revelando os impactos sociais e culturais que permeiam as escolas e universidades. O primeiro caso envolve o assassinato da professora Juliana Santiago, ocorrido em Porto Velho (RO), enquanto o segundo se relaciona à decisão do ex-jogador Túlio Maravilha e sua esposa de não permitir que a filha frequente universidades públicas, alegando motivos de ‘valores familiares’. Ambos os eventos, apesar de suas diferenças, convergem em um fenômeno preocupante: o enfraquecimento do papel da educação como um espaço de diálogo e formação cidadã.
No dia 6 de outubro, a professora Juliana Santiago foi brutalmente atacada por um aluno durante uma aula no Centro Universitário Aparício Carvalho (Fimca). O suspeito, João Junior, era um estudante regularmente matriculado e, após o ataque, foi contido por pessoas presentes até a chegada das autoridades. A motivação do crime está sendo investigada, mas o impacto sobre a comunidade escolar é inegável. Juliana foi levada ao Hospital João Paulo II, mas não resistiu aos ferimentos. Imagens da cena, que circulam nas redes sociais, mostram a gravidade da situação e a comoção que se seguiu entre alunos e professores.
Esse incidente não é um caso isolado, mas sim um reflexo de um contexto de crescente tensão social e fragilização das instituições de ensino. Especialistas apontam que a violência nas escolas deve ser entendida dentro de uma dinâmica maior de intolerância e banalização do conflito. A escola, que deveria ser um espaço de mediação, se torna, assim, um terreno vulnerável, onde a violência tem cada vez mais espaço.
A Recusa da Universidade Pública
Em um episódio que ganhou destaque nas redes sociais, Túlio Maravilha e sua esposa, Christiane, decidiram que a filha Tulliane não frequentaria universidades públicas, apesar de ter sido aprovada em cursos renomados como os da UFRJ e da UERJ. Segundo eles, a escolha se baseia na preservação de seus ‘valores familiares’, alegando que instituições de ensino privadas estariam mais alinhadas com suas crenças ideológicas.
A declaração gerou um intenso debate nas redes, levantando questões sobre a liberdade acadêmica, o papel da universidade pública e a crescente moralização da educação. Para muitos educadores envolvidos nas discussões, essa postura reflete uma visão reduzida do que deve ser a formação intelectual, onde as universidades, ao invés de serem espaços pluralistas, são vistas sob uma ótica de critérios privados e ideológicos.
Conexões entre os Dois Casos
Apesar das particularidades de cada um, ambos os episódios evidenciam tendências preocupantes que afetam a educação no Brasil. Em ambas as situações, observa-se uma perda da escola e da universidade como ambientes seguros para a convivência democrática, revelando uma fragilização do espaço educativo. No caso da violência, o conflito chegou a um ponto extremo, enquanto, no segundo, houve uma forma de isolamento ideológico que também impede o diálogo.
A ausência de políticas robustas voltadas para o cuidado e a escuta dentro das instituições de ensino só agrava as tensões, destacando a precarização das relações pedagógicas. Discursos que contrapunham ‘valores’ à pluralidade contribuem para processos de exclusão e marginalização, engendrando um cenário onde a moralização e a intolerância prevalecem.
A repercussão desses eventos nas redes sociais, a espetacularização dos fatos e a polarização entre os usuários ampliam a complexidade dos conflitos, tornando urgente a discussão sobre a direção que a educação brasileira deve seguir. É essencial que as instituições de ensino promovam políticas que garantam segurança, saúde mental e uma formação democrática. Afinal, mais do que fornecer instrução técnica, a educação deve ser entendida como um espaço para a construção de laços sociais e da cidadania.
Resistência e a Preservação dos Laços Sociais
O conceito de laço social, segundo a perspectiva psicanalítica, se refere ao conjunto de mediações que permitem a vida em comum. No atual cenário, caracterizado pela polarização e precarização das instituições, a fragilização desse laço é evidente. O desafio, portanto, reside em recompor essas conexões sociais, tornando a educação um lugar de simbolização e transformação.
Os episódios envolvendo a professora Juliana Santiago e a decisão de Túlio Maravilha nos mostram que a crise no espaço educacional é multifacetada e exige uma reflexão profunda sobre o papel da educação na sociedade contemporânea. A defesa da educação como um bem público e plural é, por isso, uma necessidade urgente, que vai muito além de um debate pedagógico, tornando-se uma questão ética e civilizatória.
À família, amigos e alunos da professora, nossos mais sinceros sentimentos de solidariedade e profunda consternação neste momento de dor. Juliana Santiago, presente!

