Vivências que Inspiram Moda e Estilo
A tradição dos doces de Cosme e Damião em saquinhos, as imagens de São Jorge nas esquinas e a venda de salgados e refrescos a preços acessíveis são apenas alguns dos símbolos que compõem a rica tapeçaria cultural do Rio de Janeiro. Esses elementos, que muitas vezes passam despercebidos na rotina, agora migraram para camisas, bandeiras e cangas, se tornando ícones de representatividade e conquistando o coração da juventude como uma nova forma de moda.
A pesquisadora e analista de moda Paula Acioli salienta que essa expressão do cotidiano carioca, com itens como chinelos, cadeiras de bar, vira-latas pelas ruas e camisetas de times locais, está em alta. “Estamos vivenciando um verdadeiro boom de paixão nacional e global pela cidade”, afirma. Para ela, esses elementos funcionam como um antídoto para a apatia que se vive atualmente no mundo.
O Surgimento de Novas Marcas e Produtos
Um exemplo notável dessa tendência é Felipe Vaz, de 27 anos, criador da marca Terra de Mulher Bonita. Com uma barraca montada nos fins de semana nas feiras da Praça Quinze e Glória, ele utiliza suas experiências e vivências como cidadão da Baixada para desenvolver seus produtos. O nome da marca faz referência a uma frase que adorna uma balsa ao lado da Linha Vermelha e já foi destaque em seu álbum de 2018.
“Tudo que eu escrevia sempre refletia o meu território. Falar sobre mim é falar da minha infância, dos lugares que frequentei e das minhas referências culturais”, conta Felipe, que tem consolidado sua marca na cena carioca. Ao lançar o perfil @terrademulherbonita no Instagram, rapidamente ganhou notoriedade, especialmente após a artista plástica Sabryna Motta compartilhar um de seus produtos, o que ajudou a alavancar seus primeiros mil seguidores.
Produtos que Retratam a Cultura Local
Os produtos de Felipe incluem bandeiras que variam em tamanho e preço, com estampas que vão desde a referência a Cosme e Damião, com a frase “Fé nas crianças”, até expressões populares como “O inimigo é fraco perto das rezas de minha mãe”. Uma de suas criações de maior sucesso é uma bandeira que representa os 25 grupos do jogo do bicho, que também pode ser encontrada como pano de prato ou canga.
As suas criações evocam a memória afetiva dos cariocas, lembrando lanchonetes e barraquinhas de rua que fazem parte da vida e da cultura local. “Como diz uma canção dos Racionais, ‘Periferia é periferia em qualquer lugar’. As vivências nas periferias e subúrbios têm semelhanças que nos conectam”, reflete o artista.
Inovações e Nostalgia nas Marcas Cariocas
Em paralelo, o publicitário Osmane Fonseca, natural de Irajá, fundou a Irada, uma marca de camisas que traz estampas inspiradas na cultura e nos nomes de bairros do Rio. A Irada é uma celebração à nostalgia e às experiências do cotidiano suburbano, conquistando até clientes de regiões mais centrais como Leme e Catete. “A ideia é homenagear a cultura local através da moda”, explica Osmane.
Outro precursora no ramo é Beto Neves, fundador da grife Complexo B, que começou suas atividades no final dos anos 1990. Com estampas que representam um carioca que mistura sofisticação e simpatia, ele trouxe à tona símbolos como São Jorge, que se tornaram ícones na moda masculina. “As pessoas estão cansadas do comum e buscam autenticidade”, ressalta Beto.
Um Futuro Promissor
Felipe Vaz está experimentando um crescimento constante em sua marca. Ele gerencia todas as etapas de produção, desde o design até a entrega, e recentemente decidiu expandir sua equipe, contratando funcionárias para ajudá-lo nas vendas. Esse é mais um passo para consolidar sua presença no mercado, sem perder as raízes que inspiram seu trabalho.
Assim, a cultura carioca continua a se reinventar e a se expressar através da moda, mostrando que cada peça, cada estampa, traz consigo histórias e vivências que nos conectam e nos definem como povo.

