O Legado da Ditadura no Cenário Político Carioca
No dia 14 de abril de 2026, às 17h, no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, o professor Lincoln Penna lançará seu mais recente livro, intitulado “O golpe continuado”. Em uma conversa realizada no meu canal no YouTube no dia 7 de abril, Penna destacou que os efeitos do golpe de 1964, que instaurou a ditadura até 1985, ainda reverberam no Brasil atual. Essa é a tese central de sua obra, que explora a continuidade das práticas autoritárias e seus impactos na política do país.
Durante nossa conversa, percebi a importância das observações e conclusões apresentadas por Lincoln Penna, especialmente em relação ao desmonte neoliberal que tem sido promovido por diversos governos, como os de Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Michel Temer e Jair Bolsonaro. Essas administrações, segundo o professor, agiram em nome dos interesses do imperialismo e do agronegócio, em detrimento dos avanços garantidos na Constituição de 1988 pela Constituinte de 1987-1988. Trata-se, portanto, de um ataque à soberania nacional e ao fortalecimento dos direitos sociais e humanos.
Debate sobre o Futuro Político do Rio de Janeiro
Atualmente, o Supremo Tribunal Federal se debruça sobre a questão do modelo eleitoral a ser adotado para a eleição de governadores e vice-governadores em mandatos “tampões” no Estado do Rio de Janeiro. Os candidatos eleitos terão a responsabilidade de governar até o final de 2026. A vacância desses cargos trouxe à tona um grave problema político que afeta a unidade federativa, cuja capital foi, por décadas, a sede do império e da República até 1960, sendo posteriormente transferida para Brasília.
O Rio de Janeiro, especialmente o antigo Estado-cidade da Guanabara, foi profundamente impactado pela ditadura militar. O regime não apenas promoveu a repressão a militantes de diversas ideologias, como também se dedicou a silenciar vozes que criticavam seu autoritarismo. A capital, mesmo após a mudança em 1960, manteve seu papel central na política do país, e a resistência ao regime se manifestou intensamente na cidade, resultando em perseguições políticas severas.
Violência e Repressão durante a Ditadura
O regime militar instaurou um período de violência extrema, com perseguições, prisões e assassinatos de adversários políticos. Essa repressão teve um caráter étnico e classista, visando especialmente negros e nordestinos, e se materializou em ações violentas das forças de segurança que utilizavam o perfilamento racial para controlar as populações nas periferias e na Baixada Fluminense.
Os chamados “esquadrões da morte” atuaram em meio a um clima de terror que se espalhou pela sociedade, alimentado também pela mídia da época. Essa violência gerou lendas urbanas que refletiam o medo generalizado, como a figura do “mão branca” no Rio de Janeiro e da “perna cabeluda” em Recife, amplificadas em obras cinematográficas como “O Agente Secreto”. As ações repressivas dessa época criaram um precedente para o que mais tarde se tornaria o controle territorial por milícias no Rio de Janeiro, que continuam a influenciar a política local.
Relações entre Crime Organizado e Política
A obra “Nos porões da contravenção”, de Aloy Jupiara e Chico Otávio, revela a intrínseca ligação entre agentes repressivos da ditadura e o jogo do bicho no Rio, sugerindo que essa conexão preparou o terreno para a infiltração do crime organizado na política. Essa relação, que começou durante o regime militar, evoluiu e continua a impactar a política brasileira contemporânea, facilitando a ascensão de parlamentares vinculados ao crime.
Adicionalmente, a fusão dos Estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, imposta sem consulta popular em 1975, consolidou o poder da oligarquia política do Rio. Essa unificação, realizada sob a Lei Complementar Federal nº 20/1974, desconsiderou a voz da população, refletindo a forma como as decisões políticas eram manipuladas durante a ditadura.
O Legado de Resistência e as Lutas pela Democracia
Após os eventos de 1979, quando a lei de anistia foi promulgada, a população carioca demonstrou resistência ao regime, elegendo Leonel Brizola e Darcy Ribeiro como governador e vice-governador em 1982. O primeiro governo de Brizola, entre 1983 e 1986, foi marcado por iniciativas significativas, incluindo um projeto educacional inovador que buscava transformar a realidade das comunidades mais carentes.
No entanto, mesmo após a transição para a democracia em 1985, o Brasil ainda enfrentava desafios. Em 1986, o brizolismo tentou continuar seu projeto com a candidatura de Darcy Ribeiro, mas a união das forças conservadoras conseguiu eleger Moreira Franco, simbolizando um retrocesso que alimentou a violência e a corrupção no Estado.
Reflexões sobre a Atualidade
Recentemente, durante uma sessão do STF, o ministro Flávio Dino lembrou que diversos governadores e parlamentares do Rio de Janeiro enfrentaram processos judiciais, ressaltando a continuidade de práticas corruptas e autoritárias. Para entender a complexidade do cenário atual no Rio, é fundamental analisar o legado da ditadura de 1964-1985, cujos efeitos ainda são visíveis na política do estado. O golpe de 1964, longe de ser um evento do passado, continua a influenciar a realidade brasileira, com agentes históricos ainda atuando em esferas de poder.

