Uma Nova Perspectiva sobre o Centro do Rio
O livro digital “Achados & perdidos — Imagens inéditas do Rio de Janeiro”, lançado por Aprazível Edições, reúne 300 fotografias raras do Centro carioca, capturadas por Aristógiton e Uriel Malta entre 1903 e 1936. A obra, que faz parte de um projeto contemplado pelo edital Pró-Carioca da Secretaria Municipal de Cultura (SMC), revela um Rio de Janeiro que foi drasticamente transformado pela reestruturação urbana promovida na gestão de Henrique Dodsworth, interventor municipal durante o governo de Getúlio Vargas. O livro pode ser acessado gratuitamente no site do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ) e promete uma versão impressa em breve.
As fotografias, que foram resgatadas de um acervo que contém mais de 14 mil imagens, documentam desde habitações populares até importantes edifícios governamentais, como o antigo Paço Municipal, que foi sede da prefeitura do Rio entre 1892 e 1942. O processo de descoberta e restauração das fotos, que estavam preservadas em álbuns com negativos e positivos em nitrato de prata, levou cerca de dois anos, segundo Elizeu Santiago de Sousa, presidente do AGCRJ.
A História por Trás das Imagens
“Essas imagens pertenceram à antiga Secretaria de Viação e Obras e vieram para o Arquivo. Mas trabalhar em um acervo com oito milhões de documentos é descobrir e redescobrir coisas o tempo inteiro”, comenta Elizeu. Além da identificação de algumas imagens, que levam o sobrenome “Malta” escrito verticalmente por Aristógiton, o trabalho envolveu uma pesquisa minuciosa em textos, processos e correspondências do próprio Arquivo e na hemeroteca, para associar as fotografias ao contexto histórico em que foram tiradas.
Entre as imagens raras está a casa da Tia Ciata, um dos locais emblemáticos do samba, e a Praça Onze, que até a primeira metade do século XX era um cartão-postal carioca, embelezado por palmeiras imperiais. Além disso, o livro mostra transformações significativas no Campo de Santana, que antes da derrubada de 18 mil metros quadrados de área verde, exibia um esplendor natural, e templos icônicos como a Igreja de São Pedro dos Clérigos, considerada um marco do barroco brasileiro.
A Relevância da Memória
O impacto da obra vai além da estética; ela se torna uma janela para a reflexão sobre como as transformações urbanísticas moldaram a identidade da cidade. Leonel Kaz, diretor editorial do projeto, destaca a importância do registro, afirmando que “é um livro que não fala só de arquitetura e urbanismo, mas de como as pessoas viviam e ocupavam esses espaços”.
Lucas Padilha, Secretário Municipal de Cultura, acrescenta que “conhecendo o passado podemos planejar melhor o presente e o futuro”. Segundo ele, a memória deve ser tratada como um serviço público, acessível a todos, assim como a educação e a saúde. O livro, ao expor esse tesouro iconográfico, busca engajar o público na história da cidade, permitindo uma redescoberta do passado carioca e suas utopias que, mesmo efêmeras, deixaram marcas significativas.
As imagens trazem à tona um Rio que, assim como o cenário de uma guerra do outro lado do Atlântico, revela um patrimônio histórico em constante transformação. É um lembrete de que a cidade, a cada novo dia, passa por um processo de renovação e reinvenção.

