O Debate Sobre a Autonomia Desportiva
Uma recente decisão da Justiça Federal reacendeu a discussão acerca dos limites de atuação entre conselhos profissionais e entidades esportivas no Brasil. O foco da controvérsia se concentra na musculação, na formação de treinadores e na autonomia das confederações que integram o sistema esportivo nacional. A questão começou a ser debatida mais intensamente após o processo nº 6014318-49.2025.4.06.3800, que tramita na 11ª Vara Federal de Belo Horizonte, onde foi ratificada uma tutela provisória solicitada pelo Conselho Federal de Educação Física (CONFEF).
A medida imposta pela Justiça determina a suspensão da promoção e venda de cursos destinados à capacitação de pessoas não registradas no sistema CONFEF/CREF para desempenhar funções consideradas exclusivas de profissionais de Educação Física. Além disso, a decisão proíbe a emissão de documentos que possam simular habilitação profissional e a cobrança de tarifas com aparência de anuidades de um conselho profissional.
Reação da Confederação Brasileira de Musculação
A Confederação Brasileira de Musculação e Fisiculturismo (CBMF) manifestou a sua contrariedade à decisão judicial. Para contestar a medida, a CBMF interpôs um agravo de instrumento no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6). Renata Falcão, advogada da CBMF e especialista em Direito Desportivo, afirmou: “A musculação é reconhecida como modalidade esportiva pela Lei nº 14.597/2023 (Lei Geral do Esporte), e a formação de treinadores esportivos por entidades competentes é respaldada legal e constitucionalmente, à luz do princípio da autonomia desportiva”.
Decisão Monocrática e Implicações
No dia 5 de outubro, o Desembargador Federal André Prado Vasconcelos, relator do Agravo de Instrumento nº 6011683-49.2025.4.06.0000/MG, negou o pedido de efeito suspensivo do recurso, mantendo a decisão anterior. Em sua análise preliminar, o relator destacou que não foi demonstrada a plausibilidade jurídica necessária para contestar a tutela concedida em primeira instância, reforçando que a atividade de personal trainer ou treinador de musculação é uma das atribuições privativas do profissional de Educação Física registrado, conforme a Lei nº 9.696/1998.
Possibilidade de Recursos e Expectativas Futuras
Como se trata de uma decisão monocrática, a legislação processual prevê a possibilidade de interposição de Agravo Interno, que deve ser julgado por um colegiado em até 15 dias úteis. Se o agravo for apreciado, outras estratégias jurídicas poderão ser usadas, especialmente à luz dos debates acerca da Lei Geral do Esporte e questões constitucionais.
A CBMF está determinada a recorrer, alegando que atua dentro da legalidade. A entidade defende que a musculação é reconhecida como uma modalidade esportiva, conforme o § 1º do art. 1º da Lei nº 14.597/2023, e que a decisão judicial impugnada limita indevidamente o exercício profissional, ferindo garantias constitucionais. Renata Falcão enfatizou: “A medida judicial infringe o art. 217 da Constituição Federal, que assegura a autonomia do desporto. Além disso, o art. 75 da Lei Geral do Esporte garante autonomia organizacional, técnica e funcional às entidades de administração desportiva”.
Expectativa de Reversão e Implicações para o Esporte
“Estamos confiantes de que a decisão será revertida nas instâncias superiores, pois a controvérsia envolve uma interpretação constitucional delicada sobre a autonomia esportiva e a diferença entre certificação e fiscalização profissional”, afirmou Renata Falcão. Ela lembrou que outros esportes, como Tênis, Beach Tennis e Capoeira, enfrentaram desafios semelhantes e conseguiram reverter decisões em instâncias superiores. “É uma questão de tempo para que o mesmo ocorra com a Musculação e o Fisiculturismo”, acrescentou.
Continuação do Debate Judicial
Esse caso possui um impacto direto sobre atletas, treinadores, entidades esportivas e conselhos profissionais, além de influenciar significativamente o modelo de organização do esporte no Brasil. Como a recente decisão não encerra o julgamento do mérito do agravo, o debate continua em evolução e deve gerar novos pronunciamentos judiciais, mantendo todos atentos às próximas etapas deste importante embate no cenário esportivo nacional.

