A realidade da educação no Brasil
O cenário educacional brasileiro enfrenta desafios significativos, especialmente à luz do teto de gastos, que demanda uma seleção rigorosa dos focos de investimento. Porém, surgem questionamentos sobre quais critérios são utilizados nesse processo. É notável que grupos sociais com maior influência nas decisões, como as classes média e alta, acabam direcionando os investimentos para o ensino superior, ao passo que muitos de seus filhos frequentam escolas privadas ou instituições federais. Esse distanciamento da realidade da educação básica pública resulta em uma apatia generalizada em defesa dessa importante esfera educacional. No entanto, essa falta de mobilização pode ser vista como uma ignorância programada, beneficiando as escolas privadas que se tornam cada vez mais procuradas. Com uma das dez maiores populações em idade escolar do mundo, o Brasil desperta o interesse de inúmeras empresas do setor educacional. Assim, o baixo investimento em educação se revela como uma parte estrutural de um sistema que prioriza o mercado em detrimento das necessidades da população.
Dados de 2014 mostram que o Brasil investia cerca de R$ 495 por mês por aluno na educação básica. Embora esses valores possam parecer significativos à primeira vista, eles não passam de uma fração do que é necessário para garantir um ensino de qualidade, representando pouco mais de 10% da mensalidade de uma escola privada de elite. Este panorama indica que o foco do sistema educacional é a expansão do mercado, e não o atendimento às demandas sociais.
A lógica neoliberal e suas consequências
A lógica neoliberal perpetua a ideia de que a escola pública básica é essencialmente sinônimo de fracasso. Tal perspectiva sugere que a qualidade da educação deve ser adquirida, reforçando um raciocínio meritocrático. Os indivíduos que atingem a riqueza, muitas vezes, acreditam que possuem o direito a tudo que é melhor na sociedade, em contraste com aqueles que não conseguiram ascender socialmente e, portanto, não merecem acesso a um ensino de qualidade. Este ciclo de desvalorização cria uma realidade em que até os indivíduos mais humildes interiorizam a crença de que merecem apenas a precariedade que a escola pública oferece. Quando há uma mudança em suas condições financeiras, a tendência é buscar escolas privadas, reconhecidas como aquelas que oferecem um ensino superior.
O sociólogo Jessé Souza ilustra essa questão ao afirmar que aqueles que mais acreditam na meritocracia são, muitas vezes, os mais pobres, que se tornam vítimas desse sistema. A lógica aporofóbica, que reflete um desprezo pela pobreza e pelas pessoas que não podem oferecer algo em troca, permeia a existência da escola pública. Nesse contexto, nem professores nem a comunidade escolar são incluídos nas discussões acerca das políticas educacionais, que são determinadas por administradores tecnocratas, resultando em uma educação padronizada e desprovida de verdadeira reflexão.
Desigualdade e falta de mobilização
A sociedade brasileira parece ter perdido a fé na escola pública. Exemplos de pais da classe média matriculando seus filhos na educação pública apenas para obter um diploma demonstram uma falta de compromisso com a qualidade educacional. O paradoxo se agrava quando se observa que, após essa etapa, muitos buscam cursinhos para prepará-los para o ingresso em universidades. Essa dinâmica evidencia que a precariedade das instituições públicas não é apenas um problema isolado, mas um reflexo de um projeto neoliberal que ataca a democracia.
Pablo Gentili já alertava nos anos 1990 para o fato de que o neoliberalismo impõe suas políticas antidemocráticas ao desarticular a ideia de educação como um direito social. O que se observa é que, enquanto a saúde pública, através do SUS, oferece acesso a medicamentos e vacinas de qualidade, a educação básica falha em proporcionar o mesmo nível de suporte, muitas vezes impedindo o acesso ao conhecimento superior. O enfoque é frequentemente em preparar os alunos apenas para o que é essencial à sobrevivência, em detrimento do desenvolvimento intelectual pleno.
A luta pela educação e a necessidade de mobilização coletiva
Nessas circunstâncias, os educadores se tornam sobreviventes em um sistema que subestima sua importância e, por consequência, desconsidera suas necessidades salariais e de formação. O ensino básico é frequentemente reduzido a um conjunto de técnicas de sobrevivência para os docentes. Esse cenário é agravado pela adoção de conteúdos simplificados e pela introdução de disciplinas que fogem do modelo tradicional de ensino.
Surpreendentemente, o único segmento que se mobiliza em defesa da educação pública são, na maioria das vezes, os próprios professores. Apesar de cortes significativos de verbas, como os mais de 110 milhões que deixaram de ser destinados à educação no estado do Rio de Janeiro, as ruas permanecem em silêncio. Os cidadãos se mobilizam para diversas causas, mas raramente para reivindicar melhorias na educação. Essa desmobilização em torno da educação representa um risco considerável para a construção de uma sociedade mais justa.
O resgate do interesse pela educação requer uma luta coletiva. Não podemos permitir que a educação se torne um artigo de luxo, acessível apenas a poucos privilegiados, pois a desigualdade na qualidade da educação é a base da desigualdade social. A luta pela educação de qualidade deve se tornar uma prioridade nas agendas sociais, reafirmando que todos têm direito a uma educação que promova não apenas o aprendizado, mas também a cidadania.

