Oscilação de preços afeta o consumidor gaúcho
Os consumidores do Rio Grande do Sul enfrentam uma forte variação nos preços da batata-inglesa ao longo do primeiro semestre de 2026. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) indicam que o preço médio do quilo da batata subiu de R$ 3,60 em janeiro para R$ 8,79 em junho, uma alta expressiva de 144,2%, antes de cair para R$ 5,43 em agosto. Entre julho e agosto, o tubérculo foi o produto que mais registrou queda na capital gaúcha, com retração de quase 23%.
Mesmo com a redução recente, o preço da batata acumula aumento de 34,07% no ano e 37,47% nos últimos 12 meses, segundo acompanhamento da Cesta Básica em Porto Alegre. Essa instabilidade impacta diretamente o bolso do consumidor, que acompanha o sobe e desce dos valores nas feiras e supermercados.
Produtor sente os efeitos das condições climáticas e custos
Porém, essa volatilidade nos preços ao consumidor não reflete integralmente o que o produtor recebe. O pesquisador do Cepea Esalq/USP, João Paulo Bernardes Deleo, destaca que, apesar de algumas altas pontuais nos primeiros meses do ano, a safra de 2026 enfrenta desafios significativos. O preço médio da saca de 25 kg da batata lavada teve picos em maio (R$ 124,88) e junho (R$ 108,60), mas iniciou o ano com valores baixos, como R$ 37,15 em janeiro, e voltou a cair em julho e agosto para R$ 61,37 e R$ 51,49, respectivamente.
Essa oscilação está relacionada a uma crise no setor, motivada pelo El Niño, que trouxe temperaturas elevadas e chuvas acima da média em Minas Gerais e São Paulo, prejudicando a produtividade. A Associação Brasileira de Batata In Natura (Abbin) prevê que o Rio Grande do Sul e o Paraná podem enfrentar dificuldades semelhantes, o que deve reduzir a oferta nacional e pressionar os preços para cima a partir de dezembro.
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Demanda estagnada e custos altos pressionam produtores
Marcos Boschini, presidente da Abbin, explica que a demanda do consumidor está limitada pela renda da população, mas a oferta deve diminuir devido às adversidades climáticas no Sul. Para compensar, regiões do Triângulo Mineiro e Bahia ampliam áreas cultivadas, embora isso provavelmente não seja suficiente para suprir a queda prevista no Sul.
Além das condições climáticas, os custos para produzir um hectare de batata no Brasil variam entre R$ 55 mil e R$ 70 mil, incluindo mão de obra, sementes, arrendamento e irrigação. A pressão financeira é agravada pela concorrência da batata pré-frita importada, que muitas vezes é vendida a preços próximos ou inferiores ao custo de produção nacional, principalmente em polos industriais como São Francisco de Paula.
Produção no RS sofre atraso por excesso de chuva
No Rio Grande do Sul, o plantio da batata começou, mas o excesso de chuva atrasa o calendário. Segundo o extensionista da Emater/RS-Ascar, Orlando Junior Kramer Velho, apenas cerca de 5% das lavouras estão plantadas nesta época, contra um cenário mais avançado em anos anteriores. Apesar do atraso, ele avalia que a safra não está comprometida, já que outras culturas terão áreas reduzidas, liberando espaço para a batata.
O RS possui 872 unidades produtivas e uma área cultivada de mais de 18 mil hectares, com produção estimada em 608,3 mil toneladas e produtividade esperada de 33,5 toneladas por hectare. Bom Jesus é o município líder em produção no estado, com produtores que mantêm a tradição há décadas, como a família Wonsovicz, que planeja cultivar cerca de 350 hectares de batata, além de milho e soja.
Mercado em crise e mudanças no consumo
O mercado da batata tem enfrentado dificuldades nos últimos anos, com preços pagos ao produtor abaixo do necessário para cobrir os custos. O aumento do consumo da batata industrializada, importada a custos menores, tem prejudicado a indústria nacional. Marcos Boschini destaca que as altas cargas tributárias tornam a produção local cada vez mais cara, ameaçando a competitividade no mercado.
O consumo per capita da batata in natura no Brasil diminuiu de 16 para 12 quilos anuais nas últimas duas décadas. Culturalmente, o tubérculo é tratado como um legume, diferentemente de países europeus e da Argentina, onde é valorizado como fonte importante de carboidratos.
Reinvenção do setor e legado histórico
Diante desse cenário, o setor busca formas de se reinventar para manter a relevância da batata na dieta brasileira. O tubérculo tem uma história rica, cultivado há séculos nos Andes e fundamental na alimentação mundial durante crises na Europa nos séculos XVII e XVIII.
No Brasil, a batata chegou na metade do século XIX trazida por imigrantes europeus, inicialmente cultivada nas regiões Sul e Sudeste, onde o clima favoreceu seu desenvolvimento. Essa tradição alimenta a cadeia produtiva atual, que precisa se adaptar para superar desafios econômicos e climáticos.

