O Nascimento do Surfe em Torres
Na década de 1960, as ondas que quebravam nas falésias de Torres passavam despercebidas, ocultas entre dunas e morros. Esse cenário, até então inexplorado, foi o palco de um dos capítulos mais significativos da cultura esportiva do sul do Brasil. A Praia da Guarita, quase deserta, era um segredo entre moradores e alguns veranistas, até que um grupo de jovens ousou experimentar o surfe, um esporte ainda raro fora dos grandes centros urbanos.
O movimento pioneiro foi liderado pelos irmãos Jorge, Klaus e Frederico Gerdau Johannpeter, membros da conhecida família proprietária da indústria de aço Gerdau, e pelo amigo Fernando Sefton. Eles foram apresentados ao surfe no Rio de Janeiro, onde a novidade despertou a curiosidade e a paixão deles pelo esporte.
Inovações e Comunidade
Os Gerdau trouxeram para o Rio Grande do Sul as primeiras pranchas de surfe, começando com as rústicas “madeirites”, confeccionadas em compensado naval, que mais tarde evoluíram para longboards de marfim, maple ou bambu. Em uma entrevista à Zero Hora em 2018, Jorge Gerdau, hoje com 89 anos, recordou suas primeiras experiências nas ondas. Usando um pé de pato para ganhar impulso, ele relembrou que era quase impossível subir na prancha com os dois pés, mas mesmo assim, ele surfou até os 73 anos.
“A gente começa a amar a natureza, a se integrar na força dela. Isso mexe com a gente”, afirmou Gerdau na ocasião, destacando como o surfe criava uma conexão especial com o meio ambiente.
Com a introdução das pranchas na Praia da Guarita, surgiu uma nova comunidade de surfistas. Rapidamente, mais jovens se juntaram ao movimento, encantados pela sensação única de deslizar sobre as ondas do Atlântico Sul. A Guarita transformou-se em um ponto de encontro, onde surfistas, veranistas e curiosos se reuniam para testemunhar as primeiras manobras e quedas, dando vida a uma cena que até então existia apenas nas páginas de revistas e filmes importados.
Expansão do Surfe Gaúcho
Com o passar do tempo, o surfe se espalhou por outras praias do Rio Grande do Sul, consolidando a Guarita como uma referência inegável do surfe gaúcho. Em 1968, a praia sediou o primeiro campeonato de surfe do estado, marcando um marco na história do esporte na região. Outros membros da família Gerdau também foram influenciados por essa paixão. Eduardo Bier, sobrinho de Jorge e empresário, é uma das vozes da nova geração de surfistas, recordando com nostalgia as viagens realizadas para praticar o esporte. “O surfe era algo novo. Os Gerdau trouxeram isso para a nossa família. Eles diziam: ‘Isso aqui é legal demais’. E realmente é! Que bom que aconteceu!”
Os Novos Dias de Surfistas
Atualmente, a Praia dos Molhes se tornou o novo ponto de referência para os surfistas de Torres. Localizada na divisa com Santa Catarina, a popularização do surfe nesta região aconteceu apenas na década de 1980. Pedro Gross, de 40 anos, é um dos praticantes mais assíduos, surfando diariamente quando o tempo permite. Nascido em Torres e filho de um pescador, ele começou a surfar aos três anos e, embora tenha competido em torneios profissionais até os 18, hoje o esporte é um hobby. “Mesmo nos dias ruins, sempre tem uma ondinha. É um surfe mais de manobras progressivas, aéreas. Aqui é muito rápido e quebrado”, explica Gross, que também administra um quiosque na Praia dos Molhes, que se tornou um ponto de encontro para os novos surfistas.
A Ilha dos Lobos: O Paraíso dos Surfistas
Considerada por alguns como local de excelentes ondas para o surfe no Brasil, a Ilha dos Lobos, situada a aproximadamente 1,8 quilômetro da costa de Torres, é um verdadeiro refúgio para lobos e leões-marinhos, além de oferecer condições ideais para a prática do surfe. Desde o final da década de 1980, a fama das ondas consistentes e altas tem atraído surfistas, com tubos perfeitos que fazem lembrar lugares icônicos como Teahupo’o, no Taiti, que sediará as competições de surfe nas Olimpíadas de 2024. Embora a prática de surfe esteja proibida na área desde 2003, o ICMBio anunciou que iniciará estudos que podem permitir a volta dos surfistas ao local.
Preservando a Memória do Surf
Um dos locais que deveria resguardar a memória do surfe em Torres é o Memorial do Surf, situado em um chalé histórico do município. Doado à cidade pela família Gerdau, o imóvel de mais de 100 anos foi transferido de sua localização original, próximo à Guarita, para um novo terreno na Praia dos Molhes. Entretanto, uma visita recente ao memorial revelou problemas de manutenção. Algumas áreas encontravam-se com as luzes apagadas, e papéis caídos espalhavam-se pelo chão, evidenciando a falta de cuidado. Um guia apareceu somente após a identificação da reportagem, ressaltando a urgência em preservar a rica história do surfe gaúcho.

