Os desafios do controle da tuberculose no Brasil
A tuberculose, uma antiga conhecida da humanidade, continua a fazer vítimas em pleno século XXI. No Brasil, a situação é alarmante, com 85.936 novos casos registrados em 2024, um aumento significativo em relação aos anos anteriores. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país não conseguiu cumprir as metas de redução de 50% da incidência e 75% da mortalidade estabelecidas pela entidade. No Rio de Janeiro, os números são ainda mais preocupantes, com taxas de incidência e mortalidade quase o dobro das médias nacionais.
A pneumologista Margareth Dalcolmo, da Fiocruz, destaca que a pandemia de covid-19 teve um impacto considerável no controle da tuberculose, resultando em um retrocesso de quase uma década. “É paradoxal que, mesmo com um tratamento acessível e diagnóstico rápido, a doença ainda ceife tantas vidas”, lamenta a especialista, que não acredita que as metas da OMS sejam alcançadas até 2030.
Vacinação e os avanços no combate à tuberculose
Apesar dos desafios, o Brasil conseguiu alcançar um índice elevado de cobertura vacinal para a vacina BCG, que protege contra as formas mais severas da tuberculose, atingindo 96,8% do público-alvo, segundo o Ministério da Saúde. Historicamente, a cobertura vacinal no país foi uma das mais altas do mundo, mas desde 2016, uma queda progressiva tem sido observada, em grande parte devido à hesitação vacinal e à falta de vacinas.
No mundo todo, a tuberculose ainda é uma realidade, com a OMS estimando 10,7 milhões de casos e 1,23 milhão de mortes por ano. O escritor John Green, em seu novo livro “Tudo É Tuberculose”, revela as desigualdades enfrentadas por pacientes em diferentes partes do mundo. Ele narra a história de Henry Reider, um jovem de Serra Leoa que sofreu com a doença, destacando que a cura está frequentemente distante de onde a doença prevalece.
Desigualdade e os riscos de contágio
A desigualdade no acesso a cuidados de saúde é um dos principais fatores que contribuíram para a propagação da tuberculose. O infectologista Hélio Bacha, do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que populações vulneráveis, como pessoas em situação de rua, encarceradas ou vivendo com HIV, estão em maior risco de contrair a doença. Aproximadamente 25% da população mundial está infectada pelo bacilo da tuberculose, mas apenas uma fração desenvolverá a doença ativa.
Henry, após três anos de internação, tornou-se um ativista e utiliza plataformas como o YouTube para combater o estigma associado à tuberculose, enfatizando a importância do tratamento contínuo e do apoio médico. Sua história, assim como a de Thiaguinho e Thiago Silva, celebrou a vitória sobre a tuberculose, destacando que o tratamento é possível e eficaz.
O futuro da tuberculose no Brasil
O Programa Brasil Livre da Tuberculose, criado pelo Ministério da Saúde, tem como meta reduzir os casos para menos de 10 por 100 mil habitantes até 2035 e eliminar custos catastróficos para as famílias. No entanto, um estudo da Fiocruz indica que, se mantidas as condições atuais, o Brasil não conseguirá atingir as metas da OMS até 2030, com uma taxa projetada de 42,1 casos por 100 mil habitantes.
Além disso, a melhoria das condições socioeconômicas, como o combate à fome e a implementação de programas como o Bolsa Família, são essenciais para reverter a situação. A preocupação é palpável entre os especialistas, que alertam que uma abordagem integrada, combinando políticas sociais e estratégias de saúde pública, é crucial para o controle da doença.

