Movimento Inovador Transforma a Leopoldina
Enquanto o Rio de Janeiro é frequentemente associado a cartões-postais como o Cristo Redentor e as praias da Zona Sul, uma iniciativa significativa está redirecionando o olhar dos turistas para a Zona Norte da cidade. Na área da Leopoldina, o turismo ganha novos contornos, carregando um sotaque suburbano e promovendo uma rica experiência cultural.
A proposta é liderada por Gabriel Capella, um turismólogo de 36 anos, que cresceu entre os bairros de Ramos e Vila da Penha. Com uma formação acadêmica sólida, ele decidiu unir seu ofício à sua história pessoal, criando roteiros que celebram a cultura popular da região. “Minha trajetória está profundamente ligada à minha origem. Ao me aproximar da Imperatriz e do Cacique de Ramos, pude perceber a riqueza cultural que existe aqui e a possibilidade de conectar minha formação profissional aos meus laços afetivos com a Leopoldina”, relata Gabriel.
Residente em Santa Teresa, Gabriel desenvolveu três roteiros autorais: Relíquias da Penha, Leopoldina Musical – do Choro ao Carnaval e Geografia Gresilense, cada um oferecendo uma vivência única da cultura local.
Cultura Popular Como Fio Condutor
No roteiro Relíquias da Penha, os participantes visitam locais emblemáticos como a Igreja da Penha, o Parque Shanghai e o Monumento Homens de Fibra, mergulhando na história do bairro e na importância da Festa da Penha, que, segundo Gabriel, foi fundamental para a consolidação cultural da cidade. “A festa deu voz à Penha em um período em que o subúrbio ainda era predominantemente rural. Isso representou um marco tanto para a cultura carioca quanto para a brasileira”, explica.
O roteiro Leopoldina Musical destaca as tradições do choro e do carnaval nos bairros de Ramos e Olaria, enfatizando agremiações como Cacique de Ramos, Imperatriz Leopoldinense e Independentes de Olaria, além da conexão do maestro Pixinguinha com a região. Por fim, o Geografia Gresilense oferece uma verdadeira aula a céu aberto sobre a história da Imperatriz Leopoldinense, acompanhada por um cavaquinista que toca sambas-enredo ao vivo, proporcionando uma experiência imersiva nas ruas históricas de Ramos, com o clímax no ensaio de rua da escola.
A construção dos roteiros se deu por meio de uma pesquisa meticulosa, envolvendo livros, jornais antigos, dissertações acadêmicas e, principalmente, conversas com os moradores mais velhos, preservando a oralidade e a memória coletiva.
Fortalecendo a Identidade Local
Gabriel enfatiza que conceber a Zona Norte como um destino turístico é uma questão de justiça histórica. “A identidade carioca que é apresentada ao mundo não poderia existir sem incluir o que o subúrbio tem a oferecer. O turismo, se realizado de maneira responsável, pode impulsionar a economia local e fortalecer o pertencimento da comunidade”, argumenta.
Atualmente, a maioria do público que participa dos roteiros é composta por moradores do Rio, especialmente das áreas Centro e Zona Sul, mas o projeto também já atraiu visitantes de países como Argentina, França e Escócia. “Eu faço questão de promover interações com a comunidade local. Isso é crucial, especialmente para aqueles que vêm de fora”, destaca.
Redescobrindo o Território
Os depoimentos de quem já participou dos passeios revelam o impacto positivo da experiência. O jornalista Gabriel Vasconcelos, 34 anos, que morou em Ramos até os 15 anos, decidiu explorar o roteiro após se deparar com o projeto nas redes sociais. “Eu já conhecia a região, mas nunca a havia explorado sob essa perspectiva turística. Essa experiência foi muito enriquecedora”, confessa.
Uma das surpresas para ele foi a utilização de monóculos com fotografias antigas dos locais visitados. “Através do monóculo, você consegue ver o mesmo lugar com décadas de história. Desfiles de blocos, ruas sem muros… foi algo muito impactante”, relata.
Gabriel também menciona que o tour ajudou a reverter a percepção comum sobre o subúrbio. “Geralmente, escutamos as histórias do Centro e da Zona Sul, como se o subúrbio tivesse surgido de maneira caótica e sem relevância. É gratificante ver alguém se dedicando a mostrar a importância desse espaço, que é parte da história das nossas famílias”, reflete.
Momentos emocionantes foram vividos, como na Rua Nossa Senhora das Graças, onde fotos antigas revelavam blocos que originaram a Imperatriz desfilando naquele mesmo local. “Foi uma experiência tocante”, completa.
Uma Nova Forma de Ver o Rio
Para aqueles que ainda não conhecem a Leopoldina, Gabriel Capella resume a experiência: “A Leopoldina é uma das partes mais lindas de um livro que não se pode ler apenas pela capa. Quer vivenciar o Rio de maneira autêntica? Venha para a Zona da Leopoldina”.
Num cenário em que as discussões sobre pertencimento e valorização dos territórios periféricos estão em alta, iniciativas como essa mostram que o turismo pode transcender o simples consumo de paisagens. Ele pode se tornar uma ferramenta de memória, autoafirmação e reconhecimento, começando, principalmente, na porta de casa.

