Medida Excepcional Diante da Crise no Abastecimento
As unidades de saúde da rede municipal do Rio de Janeiro enfrentam uma crise no fornecimento de seringas de insulina, com estoques chegando a níveis alarmantes neste mês. Em resposta à escassez, a Secretaria Municipal de Saúde tomou a medida controversa de permitir a reutilização das seringas para até três aplicações no mesmo paciente, mesmo que em dias diferentes. De acordo com a secretaria, essa decisão é temporária e se justifica pela urgência da situação.
Um documento obtido pela CBN revela que a Superintendência de Atenção Primária reconheceu que a ação foi necessária devido à limitação no abastecimento de insumos. Entretanto, essa medida vai de encontro às orientações da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que proíbe expressamente o reuso de seringas, assim como às recomendações dos fabricantes, que advogam pelo uso único do material.
A Sociedade Brasileira de Diabetes também se posicionou contrária à prática, ressaltando os riscos à saúde dos pacientes. Entre os principais problemas citados estão a perda da esterilidade das seringas e agulhas após o primeiro uso, o que aumenta significativamente o risco de contaminação. A reutilização pode resultar em lipo-hipertrofia, infecções no tecido subcutâneo, dor e desconforto, além de potenciais erros na dosagem da insulina.
O microbiologista Bruno Brunetti expressou preocupações adicionais sobre a prática. Ele destacou que o reuso das seringas não apenas aumenta o risco de contaminação, mas também pode comprometer a dosagem aplicada, levando a um descontrole glicêmico. “A contaminação microbiológica é um risco real — o paciente pode reintroduzir microrganismos em seu próprio corpo ao reutilizar a seringa”, afirmou ele. Além disso, o processo de cristalização da insulina dentro do dispositivo pode alterar o volume aplicado, resultando em doses inadequadas para o controle glicêmico do paciente.
A própria Secretaria Municipal de Saúde reconhece os riscos associados à reutilização. A normativa interna que regulamenta essa prática proíbe especificamente o reuso por pacientes imunossuprimidos, que estão em maior risco de infecção. A secretaria assegurou que a prática de reuso será suspensa assim que a normalização do abastecimento ocorrer, embora, até o momento, não haja um prazo definido para isso.
A crise no fornecimento de seringas foi atribuída ao não cumprimento do cronograma de entrega pela empresa responsável pela licitação, a qual argumentou que enfrenta uma escassez global do produto. Em resposta a essa situação, a Secretaria notificou o fornecedor, exigindo uma regularização imediata e alertou que, em caso de descumprimento, poderá impor sanções administrativas e jurídicas, podendo até suspender a empresa de participar de licitações por um período de até dois anos. Além disso, a pasta está em busca de um segundo fornecedor e lançou um novo processo de compra para garantir a disponibilidade do material.
De acordo com a Secretaria, o objetivo das medidas adotadas é evitar a interrupção do tratamento de pacientes que dependem de insulina. A pasta também mencionou que sua decisão tem respaldo em protocolos clínicos do Ministério da Saúde, que mencionam a possibilidade de reuso por até oito vezes, embora essa prática não seja recomendada sem a devida supervisão.

