Após três mortes em cruzeiro, autoridades investigam surtos de hantavírus
A recente crise médica no cruzeiro MV Hondius, que navega nas proximidades de Cabo Verde, trouxe à tona a preocupação com o hantavírus, uma doença rara, mas potencialmente fatal, que se espalha principalmente através do contato com roedores infectados. Com três mortes já confirmadas e um caso de hantavírus detectado, as autoridades neerlandesas estão trabalhando para repatriar dois passageiros que exibem sintomas da infecção. A origem destes óbitos e a possível ligação com o vírus ainda estão sob investigação.
No primeiro comunicado a respeito da situação, a Oceanwide Expeditions, responsável pela embarcação, mencionou ter enfrentado uma “situação médica grave” durante a rota que partiu de Ushuaia, na Argentina, em direção a Cabo Verde. De acordo com a operadora, duas pessoas faleceram a bordo e uma terceira após o desembarque. Um passageiro segue internado em estado crítico em Joanesburgo, na África do Sul, e outros passageiros necessitam de “atenção médica urgente”.
“As autoridades neerlandesas aceitaram coordenar uma operação conjunta para repatriar as duas pessoas com sintomas do MV Hondius, de Cabo Verde para os Países Baixos”, declarou a Oceanwide Expeditions. Contudo, a repatriação depende da autorização das autoridades locais de Cabo Verde. Embora médicos tenham realizado avaliações nos passageiros doentes, a evacuação ainda não foi autorizada.
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O hantavírus e sua transmissão
O hantavírus foi confirmado em um dos passageiros internados, mas a operadora destacou que ainda não se sabe se o vírus foi a causa das mortes. Assim, a causa exata e a possibilidade de um vínculo entre os casos estão sendo investigadas. A Organização Mundial da saúde (OMS) informou que um caso de infecção por hantavírus foi confirmado, além de cinco casos suspeitos.
A hantavirose, por sua vez, é uma zoonose transmitida por roedores silvestres. A infecção em humanos pode resultar em duas formas clínicas principais: a Febre Hemorrágica com Síndrome Renal, mais comum na Ásia e na Europa, e a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus, que ocorre nas Américas. Esse vírus, ao contrário de outros da família Bunyaviridae, não é transmitido por artrópodes, mas sim pelo contato com roedores infectados, especialmente através da inalação de partículas presentes na urina, fezes ou saliva desses animais.
Relembrando o surto dos anos 90
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O hantavírus ganhou notoriedade mundial após um surto em 1993, quando uma enfermidade respiratória desconhecida afetou a região de Four Corners, nos Estados Unidos, que abrange os estados do Novo México, Arizona, Colorado e Utah. Naquela primavera, pessoas jovens e saudáveis começaram a apresentar febre, dores musculares e sintomas gripais, que rapidamente evoluíam para edema pulmonar e insuficiência respiratória.
A investigação começou após a morte de um jovem indígena de 19 anos, que colapsou durante uma viagem. O caso gerou a atenção das autoridades de saúde, que identificaram semelhanças com algumas mortes semelhantes na região. Com o alerta enviado para médicos da área, um grupo de investigação se mobilizou rapidamente, e em junho de 1993, o CDC confirmou que o hantavírus estava relacionado aos casos.
Os cientistas descobriram que o Peromyscus maniculatus, ou rato-veadeiro, era o principal vetor do vírus. A propagação da doença foi associada a um aumento na população de roedores, impulsionada por condições climáticas favoráveis. O surto resultou em um número alarmante de casos, e as taxas de mortalidade superaram 75% entre os infectados.
Casos registrados no Brasil
No Brasil, a Síndrome Cardiopulmonar por Hantavírus foi reconhecida pela primeira vez em 1993, no estado de São Paulo, e desde então, diversas variantes do vírus foram identificadas em diferentes regiões do país. A doença se espalhou por várias localidades, com a primeira ocorrência no Pará em 1995, e outros registros subsequentes em estados como Bahia, Minas Gerais, e Rio Grande do Sul.
A infecção apresenta um período de incubação que varia de uma a cinco semanas, podendo incluir uma fase inicial de febre e sintomas gerais. Com o tempo, os pacientes podem desenvolver tosse e sinais de insuficiência respiratória, necessitando de um diagnóstico precoce. A mortalidade nessa fase chega a ser de aproximadamente 40%, o que torna o reconhecimento da doença crucial para a sobrevivência do paciente.
O tratamento, por sua vez, é complexo, principalmente devido ao risco de agravamento do edema pulmonar. Medidas como a oxigenação por membrana extracorpórea são recomendadas em casos severos, embora o envolvimento em pesquisas sobre a doença continue a ser necessário.

