Expansão do Airbnb e suas consequências no mercado imobiliário do Rio
O crescimento acelerado do Airbnb no Rio de Janeiro trouxe à tona debates intensos sobre as mudanças no espaço urbano da cidade. Uma pesquisa da ONG Inside Airbnb revelou que, em julho de 2026, a plataforma contava com 48.193 anúncios ativos na cidade, um aumento de 11% em relação a 2025. Copacabana lidera com 13.174 anúncios, representando quase um terço da oferta total, seguida por bairros como Lapa, Ipanema, Leme e Leblon. Esse cenário tem gerado discussões sobre os efeitos desse modelo de aluguel por temporada na disponibilidade e nos preços dos imóveis destinados à moradia permanente.
O poder executivo municipal afirmou acompanhar o mercado imobiliário e promover programas para estimular a habitação, como o Reviver Centro e o Praça Onze Maravilha. No entanto, esses projetos enfrentam críticas de movimentos sociais, moradores e parlamentares, além de denúncias de falta de participação popular e riscos para a permanência de populações locais, como registrado em audiência promovida pelo Federal (MPF) em maio deste ano.
Dados conflitantes e opacidade das plataformas digitais
O Airbnb contestou os dados da Inside Airbnb, alegando que a metodologia apresenta falhas e desatualizações. A empresa destacou uma pesquisa encomendada à Fundação Getúlio Vargas (FGV), que aponta que sua atuação movimentou R$ 12 bilhões na economia carioca em 2025, gerando mais de 73 mil empregos e contribuindo com R$ 6 bilhões para o PIB municipal. Ainda assim, conforme análise do pesquisador Paulo Monsores no Programa de Pós-graduação em Geografia da Janeiro (UERJ), a falta de transparência dos algoritmos dificulta o entendimento dos critérios usados para definir preços dinâmicos em diferentes situações, como dias de chuva ou grandes eventos.
Isso evidencia a necessidade urgente de mecanismos regulatórios para plataformas digitais, que já transformam o funcionamento da economia. No Rio, o crescimento do Airbnb é um exemplo claro das consequências dessas mudanças no capitalismo dependente brasileiro, que combina financeirização, neoextrativismo e expansão dos serviços digitais.
O novo padrão do capitalismo brasileiro e seus desdobramentos no setor imobiliário
O Brasil do século XXI vive uma transição marcada pela desindustrialização, financeirização e reprimarização das exportações. Segundo a economista Leda Paulani, o país se tornou uma plataforma de valorização financeira e exportação de commodities, onde capitais financeiros investem em mineração, agronegócio e infraestrutura, aumentando a penetração da lógica financeira na economia e na sociedade.
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Além disso, o Brasil se destaca como plataforma privilegiada para a expansão dos serviços digitais, com uma população que, em média, passa 116 horas por semana conectada à internet, conforme pesquisa divulgada pela CNN Brasil em abril de 2026. Essa intensa vida digital cria condições favoráveis para o crescimento de plataformas como Airbnb e Uber, que encontram no país um mercado amplo aliado a condições sociais e econômicas que favorecem a expansão desses modelos de negócios.
O exemplo da Uber, que tem no Brasil seu maior mercado em número de viagens, ilustra como modelos digitais modernos se sustentam em realidades de precariedade urbana, trabalho superexplorado e um Estado pouco regulador. Essa combinação cria uma nova dinâmica econômica, onde o “moderno” depende do “atrasado”, um fenômeno que se reflete também no mercado imobiliário.
Financeirização e plataformização: nova lógica na valorização imobiliária
O geógrafo David Harvey explica que a mercantilização da terra é fundamental para o capitalismo, pois o preço da terra reflete a expectativa de rendimentos futuros, funcionando como capital fictício. No Brasil, a financeirização do mercado imobiliário, por meio de Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs) e Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRIs), ampliou as formas de capitalizar esses ativos.
A plataformização, por sua vez, traz novos instrumentos para transformar imóveis em fontes de renda. Com o Airbnb, imóveis passam a ser vistos não só como moradia, mas como ativos para gerar receita contínua, levando proprietários a administrar seus bens como pequenos gestores financeiros. Isso também impacta incorporadoras, que hoje vendem imóveis destacando sua rentabilidade e potencial de aluguel de curta duração, reforçando a profissionalização da gestão imobiliária.
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Além disso, parte dos capitais acumulados nos setores primário-exportadores pode buscar valorização em ativos imobiliários, alimentando circuitos como o “urbanismo de luxo” e o “agroluxo” em diferentes cidades. Essa relação amplia o conceito de extrativismo ao incluir a captura de rendas ligadas a paisagens e atributos socioespaciais valorizados no mercado.
Conflito entre Airbnb e direito à moradia
A expansão do Airbnb evidencia uma contradição central: a mesma propriedade pode ser moradia ou ativo financeiro. Imóveis destinados ao aluguel de curta duração deixam de estar disponíveis para moradia permanente, reduzindo a oferta e pressionando os preços. A profissionalização dos anfitriões, que administram múltiplas unidades, transforma o mercado em uma operação empresarial, intensificando essa tensão.
A cidade, portanto, é palco de um conflito entre valor de uso e valor de troca, onde imóveis residenciais se subordinam às necessidades de valorização econômica. A “airbnbização” representa uma expressão dessa subordinação, exigindo que se construam alternativas para limitar o impacto das plataformas digitais sobre o direito à moradia e à cidade.
Luiz Cesar de Queiroz Ribeiro, professor titular do Regional (IPPUR) da Janeiro (UFRJ) e coordenador nacional da rede do INCT Observatório das Metrópoles, e Nelson Diniz, professor do Departamento de Geografia do Colégio Pedro II e pesquisador do INCT Observatório das Metrópoles Núcleo Rio de Janeiro, destacam a urgência de políticas que enfrentem esse desafio para garantir o equilíbrio entre desenvolvimento econômico e justiça social na cidade.

