Trajetória artística e raízes em São Gonçalo
Nascida e criada em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio de Janeiro, a cantora e compositora Naiara Martins desenvolveu uma carreira que entrelaça música e literatura de forma singular. No dia 12 de novembro, às 20h30, ela estreia no Dolores Club, na Lapa, o show “Terras do Sem-Fim”, inspirado em seu álbum de estreia.
Com direção musical de Pedro Braga e produção de Daniel Cahon, o espetáculo mistura bossa nova, samba de cabula, clássicos da música brasileira e composições inéditas, incorporando ainda influências africanas e indígenas, especialmente por meio de elementos das línguas iorubá e kaiapó.
Projeto que nasce da reflexão sobre identidade cultural
Idealizado em 2019, o trabalho surgiu de uma profunda reflexão sobre a identidade brasileira e as múltiplas matrizes culturais que formam o país. A faixa-título “Terras do Sem-Fim”, composta por Fred Martins e Roberto Bozzetti, é peça central do álbum e traz participação especial do cacique Raoni Metuktire, símbolo da luta dos povos indígenas.
Além da música, Naiara é doutora em Teoria da Literatura, mestre em Estética e Filosofia da Arte, e crítica literária. Em 2024, foi indicada ao Prêmio Jabuti de Filosofia por seu livro sobre José Saramago e Montaigne.
Influências da infância e o despertar artístico
Em entrevista ao jornal A Tribuna, a artista recorda a infância em São Gonçalo, onde viveu mais de 20 anos. “Nasci no Boaçu e depois moramos no Centro. Minha mãe sempre investiu em educação e livros, me obrigava a ler”, conta. O contato com a natureza e a consciência social adquiridos na cidade nos anos 1980 e 1990 marcam seu olhar artístico e pessoal.
As lembranças incluem a família e a música como herança: “Minha avó Jurema gostava de contar histórias e cantar. Cresci ouvindo serestas nas rodas musicais da família em Neves. Minha relação com a música é intuitiva, aprendi muito com eles”, relata Naiara, que optou pelo nome artístico Naiara Martins em homenagem à sua trajetória musical, diferenciando-se do nome literário, Naiara Barrozo.
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Construção do álbum e processo criativo
O álbum começou a tomar forma em 2019, a partir do desejo de tocar violão para o filho. Sob orientação do professor e produtor Daniel Cahon, Naiara começou a gravar e selecionar um repertório que refletisse sua visão sobre o Brasil. Uma viagem pelo rio Guamá, no Pará, e o encontro com a música “Terras do Sem-Fim” de Fred Martins foram determinantes para o conceito do projeto.
A pandemia reforçou o desejo de pensar o país em sua diversidade cultural, valorizando as matrizes africanas e indígenas. “Quero um Brasil que respeite a diferença, onde todas as identidades tenham espaço garantido”, afirma a cantora.
Riqueza de gêneros e referências no espetáculo
O show apresenta uma mistura orgânica de estilos e influências. Além da bossa nova e do samba de cabula, há ainda a musicalização do poema português “Comigo me desavim”, de Sá de Miranda. “Traduzir nossa identidade é abraçar a multiplicidade, reconhecer que a diferença dá sentido ao país”, comenta Naiara.
O espetáculo conta com a colaboração de músicos como Pedro Braga (direção musical e violão), Gabriel Policarpo (percussão) e, em algumas apresentações, Fernando Caneca.
Participação especial do cacique Raoni e significado da faixa-título
Na gravação da música “Terras do Sem-Fim”, o cacique Raoni Metuktire empresta sua voz, trazendo a perspectiva indígena para a canção. A letra, criada por Roberto Bozzetti, dialoga com o poema “Cobra Norato” de Raul Bopp e aborda a visão da floresta sob o olhar do homem branco, enquanto a participação de Raoni acrescenta a presença de quem vive dentro desse universo.
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Fonte: curitibainforma.com.br
Para Naiara, essa colaboração é fundamental para afirmar a diversidade e a permanência das culturas indígenas como parte da identidade brasileira.
Diálogo entre música, literatura e filosofia
Além da música, Naiara Martins tem uma trajetória acadêmica ligada à literatura e à filosofia. “A música é uma forma de elaboração do pensamento, assim como a escrita”, explica. A canção “Mulher Malevich”, por exemplo, nasce de um poema da escritora Yasmin Nigri, revelando o entrelaçamento entre as artes.
Regravações como a de “Baticum de Bará” mostram seu modo particular de interpretar e traduzir subjetivamente as obras, compondo um processo que aproxima música e filosofia.
Mensagem para jovens artistas de São Gonçalo
Naiara deixa um conselho para quem deseja seguir carreira musical na cidade: “Estudem, ouçam tudo, da música clássica ao funk. É fundamental compreender a música como linguagem. A técnica é importante, mas também o que você lê, vê e como enxerga o mundo vai aparecer na sua música”, destaca.
Com o lançamento de “Terras do Sem-Fim”, Naiara Martins convida o público a uma experiência que celebra a riqueza cultural brasileira, valorizando suas origens e diversidade, e fortalecendo a circulação da música autoral no cenário nacional.

