Pressões políticas e incertezas econômicas no Fed
Durante uma entrevista ao programa Capital Insights, Roberto Padovani, economista-chefe do BV, apontou que o debate acerca da política monetária do Federal Reserve (Fed) está atualmente marcado por um misto de incertezas técnicas e significativa “ansiedade política”. Segundo Padovani, essa preocupação vem à tona especialmente em um contexto onde as taxas de juros nos Estados Unidos se encontram entre 3,5% e 3,75%, um patamar que, embora historicamente elevado, ainda gera incômodo entre os cidadãos.
A pressão para que o Banco Central dos EUA adote uma postura mais branda em relação aos juros tem sido uma constante, com críticas contundentes, especialmente do ex-presidente Donald Trump. Padovani explica que os dirigentes do Fed estão em um dilema entre seguir uma linha técnica, que questiona a persistente inflação em relação à intenção de convergir para a meta de 2%, e as pressões políticas que insistem por uma mudança de postura.
Os fatores que influenciam essa decisão são variados. O impacto das tarifas implementadas durante a presidência de Trump, o impulso fiscal proporcionado pela proposta denominada “One Big, Beautiful Bill”, além de um mercado de trabalho que apresenta sinais mistos, estão entre os principais elementos em discussão. A pressão sobre o mercado imobiliário e as perspectivas de como a inteligência artificial poderia impulsionar a produtividade nos EUA são interpretadas de formas diferentes, dependendo do espectro político no qual se está inserido.
Sobre a inteligência artificial, Padovani reconhece a relevância da tecnologia como um fator disruptivo, mas questiona a rapidez com que seus efeitos serão percebidos na economia. “Acho que este processo é mais lento e não deveria estar no cálculo de curtíssimo prazo”, afirmou, reforçando a necessidade de uma análise mais cautelosa diante das incertezas atuais.
Ao observar as recentes sinalizações do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) sobre a política monetária, Padovani ressalta que a falta de consenso é motivo de preocupação entre os agentes econômicos. Segundo ele, “estamos falando da maior economia do planeta e não há nenhuma indicação clara sobre os rumos da política monetária. Essa divisão reduz a previsibilidade dos cenários”, conclui.
Gestão da política monetária brasileira sob análise
Além de discutir o cenário americano, Padovani também abordou a condução da política monetária no Brasil. Para ele, a gestão do Banco Central brasileiro é considerada “uma das melhores possíveis”. Ele recorda que, em 2024, o Brasil passou por uma transição no comando da instituição, o que gerou certo ceticismo no mercado. A troca de Roberto Campos Neto, indicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, por Gabriel Galípolo, nome de confiança do atual governo, foi a primeira mudança de liderança em um Banco Central autônomo.
Para Padovani, existia uma grande incógnita em relação à política que seria adotada sob a nova gestão, especialmente em relação à independência da autarquia frente às críticas do presidente Lula sobre a política monetária. No entanto, segundo o economista, o que se observou foi um comprometimento claro do Banco Central com a meta de 3%, acompanhado de uma comunicação eficaz sobre a busca pelo centro dessa meta.
Padovani destaca que a postura comunicativa do Banco Central é crucial, pois indica um compromisso real com a política definida. Ele menciona o choque monetário que elevou a taxa Selic, a taxa básica de juros do Brasil, para 15%, e sua manutenção por um longo período. Ao mesmo tempo, ele ressalta que a comunicação atual do Banco Central sugere que, embora haja sinais de melhoria, as expectativas para a inflação ainda não estão totalmente ancoradas, o que pode impactar a confiança na trajetória futura da dinâmica inflacionária.

