Uma Nova Onda de Oportunidades para o Acordo
A crescente assertividade dos Estados Unidos na América do Sul, especialmente sob a liderança de Donald Trump, está gerando novas dinâmicas nas relações comerciais entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. Especialistas acreditam que essa pressão externa pode finalmente viabilizar o tão aguardado acordo entre os blocos. Segundo consultores em comércio internacional, o cenário atual de incertezas globais e a postura mais agressiva do governo americano têm incentivado os europeus a se aproximarem dos sul-americanos, em busca de aliados mais confiáveis.
O acordo UE-Mercosul, que se arrasta há mais de duas décadas, é considerado crucial não apenas para as relações comerciais, mas também para a presença da UE em uma região onde a China já exerce forte influência, sendo uma das principais fornecedoras industriais e compradoras de commodities.
Impacto do Apoio Italiano
De acordo com Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e atual sócio da consultoria BMJ, o apoio da Itália ao acordo é um indício positivo. Barral ressalta que essa mudança de postura é resultado de pressões internas dentro da UE, que vinha clamando por uma definição sobre o tratado após o pedido de prorrogação liderado por Roma.
“O apoio italiano é um sinal claro de que a União Europeia está preocupada em não perder espaço, especialmente na América Latina. O ataque à Venezuela pode ter influenciado essa decisão”, afirma Barral, que vê a ratificação do acordo como uma forma da UE preservar sua influência em regiões historicamente ligadas ao bloco.
Geopolítica em Jogo
Marcos Jank, professor e pesquisador sênior de agronegócio global no Insper, também destaca a importância do contexto geopolítico. Segundo ele, a postura dos EUA em relação à América Latina, refletida no discurso de Trump, que classifica a região como área de influência americana, pode impulsionar a Europa a buscar uma aproximação mais efetiva com o Mercosul.
“O componente geopolítico é fundamental. A forma como os Estados Unidos estão se posicionando pode sinalizar uma intensificação das relações comerciais entre Europa e América do Sul, com a assinatura do acordo sendo uma consequência natural desse movimento”, explica Jank.
Comparação com a Relação com a China
Jank ressalta que, diferentemente das interações entre a Europa e a China, que envolvem uma disputa hegemônica direta com os EUA, o acordo Mercosul-UE é mais estável e vem sendo discutido há muito tempo. Essa previsibilidade pode facilitar a conclusão do pacto, em um cenário onde muitos países buscam segurança e estabilidade nas suas relações comerciais.
A Visão de Roberto Jaguaribe
Roberto Jaguaribe, conselheiro do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) e ex-embaixador do Brasil na Alemanha, também reforça essa perspectiva. Ele argumenta que a instabilidade no sistema internacional tem pressionado a Europa a buscar laços mais confiáveis, e a ofensiva americana contra a Venezuela confirma essa tendência.
No que diz respeito à Itália, Jaguaribe observa que a primeira-ministra Giorgia Meloni sempre reconheceu a importância do acordo para o país, mas sua resistência inicial tinha a ver com questões internas e a busca por maximizar benefícios políticos dentro da UE. “Agora, ela parece disposta a avançar, pois o acordo é extremamente vantajoso para a Europa. É uma das raras oportunidades em que a Europa pode obter vantagens reais em relação a potências como os Estados Unidos e a China, que não têm acesso ao mercado do Mercosul nas mesmas condições”, conclui.

