O Impacto da Violência na Sociedade Latino-Americana
Desde cedo, o tema da criminalidade na América Latina sempre despertou meu interesse, especialmente em relação a crimes midiáticos e organizações criminosas. O lançamento do filme “Cidade de Deus” marcou minha infância, e, desde então, entender a complexa relação entre pobreza, tráfico de drogas, corrupção e política tornou-se uma verdadeira paixão. Filmes como “Tropa de Elite” também tiveram um papel fundamental nesse processo, especialmente na sua sequência, “Tropa de Elite 2”.
Com o avanço das plataformas de streaming, meu consumo de conteúdo sobre criminalidade se intensificou. Séries como “Narcos México” e “Narcos”, protagonizadas por Wagner Moura, cativaram meu interesse adulto, assim como “Impuros”, “Arcanjo Renegado” e “Cidade de Deus” (a série). Não sou um caso isolado; o tema da violência urbana ressoa de forma poderosa na experiência do homem médio latino-americano.
A realidade é que crescemos em sociedades marcadas pela violência. Aqueles que têm a sorte de viver longe das comunidades mais afetadas, onde o tráfico e a criminalidade são rotina, ainda assim enfrentam a violência por meio das notícias, dos telejornais e do medo constante. O receio de andar à noite, de ser abordado por motoqueiros ou de ter pertences pessoais roubados é uma preocupação comum, especialmente para as mulheres.
A Ascensão Política de José Antonio Kast no Chile
Com isso em mente, é possível refletir sobre eventos políticos recentes, começando pela significativa vitória de José Antonio Kast, eleito presidente do Chile em 2025. Conhecido pela imprensa como o “Bolsonaro Chileno”, Kast fez uso de um discurso contundente contra a criminalidade e a imigração, conquistando a maior votação da história chilena. O doutor em sociologia, Eugenio Tironi, citou à BBC que o medo da criminalidade, vinculado à imigração irregular, especialmente de venezuelanos, foi crucial para a ascensão de Kast, que defende uma abordagem violenta no combate ao crime.
Vale ressaltar que Kast não é o primeiro a ganhar notoriedade ao adotar um discurso rígido contra o crime organizado. Entretanto, suas ações têm gerado resultados visíveis. Após uma operação policial que resultou em 121 mortes nos complexos do Alemão e da Penha, no Rio de Janeiro, a popularidade do governador Cláudio Castro atingiu seu auge desde 2022. Castro, uma figura pouco conhecida fora do estado, agora é reconhecido em todo o Brasil. Apesar de um subsecretário da polícia do estado afirmar que a operação teve resultados limitados, o simbolismo da ação repercutiu fortemente na opinião pública.
Esse efeito simbólico da violência também se reflete nas redes sociais. Imagens da operação dominaram o Instagram e o YouTube, onde conteúdos sobre a ação policial e entrevistas de apoio à violência policial foram amplamente compartilhados. Tal fenômeno fomentou um debate sobre propostas de endurecimento da legislação contra o crime organizado, com a extrema-direita buscando equiparar o narcotráfico a organizações terroristas.
A Nova Doutrina de Segurança Nacional de Donald Trump
Por fim, é essencial destacar a nova doutrina de segurança nacional de Donald Trump, que apresenta três características notáveis. Primeiro, a revitalização da Doutrina Monroe, que estabelece que a América Latina deve ser considerada uma zona de influência americana inquestionável. Em segundo lugar, a intenção de apoiar “governos amigos” na região no combate ao narcotráfico e à influência de potências como China e Rússia. Por último, o foco em equiparar organizações criminosas envolvidas no tráfico de drogas a grupos terroristas.
Dentro desse contexto, um “governo amigo” para Trump no Brasil englobaria aqueles que compartilham a visão de que o narcotráfico é terrorismo, justificado por potenciais intervenções militares dos EUA em território nacional. A retórica de Trump, que impulsionou a captura do presidente Nicolás Maduro, reflete essa estratégia. Embora Maduro não tenha sido preso por ser um ditador, sua rotulação como “narcoterrorista” indica uma nova abordagem no combate à criminalidade.
Os algoritmos de redes sociais, com os quais Trump também mantém uma relação estreita, desempenham um papel crucial na formação da opinião pública. Pesquisadores italianos têm explorado como esses algoritmos moldam a percepção das questões de interesse público, facilitando o acesso a determinadas narrativas e informações. Enquanto os usuários interagem com esses sistemas sociotécnicos, os algoritmos são moldados pela reação do público.
Essa dinâmica complexa não é à toa que o governo Trump buscou controlar algoritmos de plataformas como o TikTok, reforçando sua influência sobre a narrativa política. Ao abordar meu interesse pela violência, que antecede a era algorítmica, é evidente que o papel das redes sociais na formação de opinião vai além da simples recepção de conteúdo; envolve interações diretas com um ecossistema sociopolítico mais amplo.
Conclusão: A Insegurança no Debate Político Latino-Americano
Embora o Chile apresente taxas de criminalidade inferiores a outros países da América Latina, a insegurança permeia o debate político. A pesquisa da Ipsos revela que 63% dos chilenos consideram a violência como sua maior preocupação, um percentual que supera o de países como México e Brasil. Em um cenário onde a extrema-direita se fortalece, é concebível que o Brasil siga um caminho semelhante ao do Chile, impulsionado por interesses políticos externos e influências algorítmicas. A conexão entre violência urbana e a política latino-americana se torna, assim, um tema central que todos devem considerar no contexto atual.

