Aumenta a Procura por Melatonina e Higiene do Sono
Nos últimos meses, o interesse pela melatonina disparou no Brasil, de acordo com um levantamento do Google. A pesquisa revela que, paralelamente, a busca por práticas de “higiene do sono” cresceu 220%, um número consideravelmente superior ao aumento de 80% observado em nível global. Esses dados indicam que um número cada vez maior de brasileiros enfrenta dificuldades para dormir e busca soluções eficazes para melhorar a qualidade do sono.
A Associação Brasileira do Sono (ABS) estima que cerca de duas a cada três pessoas no Brasil relatam problemas relacionados ao sono. Uma pesquisa realizada pelo Instituto de Sono em São Paulo, o Episono, apontou que 15% da população apresenta diagnóstico formal de insônia crônica, caracterizada por queixas de sonolência frequente durante a semana que persistem por mais de três meses.
Uso de Remédios para Dormir é Prevalente
Além da melatonina, o número de brasileiros que recorre a medicamentos para dormir é alarmante. Um estudo publicado na Revista de Saúde Pública, utilizando dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) do IBGE, demonstrou que 8,5% da população, ou cerca de 18 milhões de pessoas, utiliza esses fármacos. A melatonina, embora não seja considerada um remédio, é frequentemente buscada como uma alternativa para auxiliar no sono.
Nos últimos 12 meses, algumas das perguntas mais frequentes sobre a melatonina no Google incluem: “para que serve”, “o que é”, e “crianças podem tomar?”. Para esclarecer essas e outras dúvidas, especialistas consultar o GLOBO.
O que é Melatonina?
A melatonina é um neurohormônio produzido pela glândula pineal, localizada no cérebro. A neurologista Dalva Poyares, professora de Medicina do Sono na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), explica que o pico de produção ocorre à noite, enquanto durante o dia os níveis são reduzidos. Isso está intimamente ligado ao nosso ciclo de vigília e sono.
A substância também pode ser encontrada em alimentos, como frutas e carnes. Desde 2021, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) autorizou a comercialização de melatonina sintética como suplemento alimentar, com uma dose diária limitada a 0,21 mg.
A Melatonina é Eficaz para Dormir?
Embora a melatonina desempenhe um papel crucial na regulação do ciclo circadiano, os especialistas são unânimes ao afirmar que não há indicações para seu uso como um tratamento eficaz para insônia. Dalva Poyares afirma: “Não temos evidências que comprovem a eficácia da melatonina na insônia. Ela não induz o sono nem ajuda a mantê-lo.”
Da mesma forma, o neurologista Lucio Huebra, do Hospital Sírio-Libanês, destaca que as diretrizes, tanto nacionais quanto internacionais, não recomendam a melatonina como solução para esse problema. “As opções recomendadas incluem medidas comportamentais, práticas de higiene do sono e terapia cognitivo-comportamental em casos mais severos, com o uso de indutores do sono em doses mínimas e por períodos curtos.”
Quando a Melatonina Pode Ser Usada?
Existem algumas situações em que a melatonina pode ser indicada, como ressalta o endocrinologista Márcio Mancini, da Universidade de São Paulo (FMUSP). “Uma aplicação interessante é ao viajar para locais com fusos horários diferentes, pois a suplementação pode ajudar o organismo a se adaptar.” No entanto, ele reforça que essa não é uma solução universal e deve ser usada sob orientação médica.
Outras situações que podem justificar a recomendação da melatonina incluem distúrbios do ritmo circadiano e casos específicos, como algumas pessoas com transtornos do espectro autista e aqueles afetados por cegueira ou sonambulismo. Na maioria dos casos, a produção natural de melatonina é suficiente para manter o ritmo circadiano e a qualidade do sono.
Melatonina é Segura? Quais os Efeitos Colaterais?
Em geral, a suplementação de melatonina é bem tolerada, com estudos indicando baixos níveis de toxicidade e sem evidências de dependência. Contudo, alguns efeitos colaterais leves, como sonolência matinal e dor de cabeça, podem ocorrer.
Cientistas recentemente apresentaram dados que sugerem uma associação entre o uso de melatonina a longo prazo e um risco aumentado de problemas cardíacos. Entretanto, essa pesquisa é observacional e não estabelece uma relação de causa e efeito.
Quem Deve Evitar a Melatonina?
A Anvisa aprova a utilização de melatonina apenas para pessoas com 19 anos ou mais, o que significa que não é recomendada para crianças no Brasil. Além disso, gestantes, lactantes e pessoas em atividades que exigem atenção constante devem evitar o uso. Também é aconselhável que indivíduos com doenças hepáticas graves abstenham-se da melatonina, uma vez que sua metabolização ocorre nesse órgão.
Embora a melatonina seja vendida como suplemento alimentar no Brasil, especialistas advertem sobre a importância de seu uso sob supervisão médica. Doses elevadas podem levar a sérios problemas de sonolência e perturbar a produção natural de melatonina no organismo.

