Acordo Histórico e Contexto Político
O acordo de livre comércio entre a União Europeia e os países do Mercosul, assinado no dia 9 de janeiro, surge em um momento de grandes tensões políticas. A assinatura ocorreu apenas um dia antes do sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cília Flores, por forças de elite dos Estados Unidos. Ambos foram levados para serem acusados em Nova Iorque por supostos vínculos com o tráfico de drogas. Este contexto ressalta a relevância do acordo, que abrange 720 milhões de consumidores e um PIB conjunto de aproximadamente US$ 22,4 trilhões, reforçando a necessidade de multilateralismo e respeito ao direito internacional.
Apesar da cobertura crítica da imprensa americana, incluindo veículos como “The New York Times”, “Washington Post” e “Wall Street Journal”, que destacam a avareza do governo de Donald Trump em relação à exploração das reservas de petróleo da Venezuela, o impacto positivo desse acordo não pode ser ignorado. A Chevron, por exemplo, já opera na exploração do petróleo pesado do país, mas a proposta de livre comércio entre a UE e o Mercosul representa uma alternativa significativa ao cenário de tensão imposto pelos EUA.
Consequências do Acordo para o Comércio Global
O acordo, que levou mais de 25 anos para ser negociado, poderia ter abrangido um número ainda maior de países e economias, não fosse a controvérsia gerada pelo Brexit. A saída do Reino Unido da União Europeia, concretizada em 31 de janeiro de 2020, resultou em um cenário onde muitos britânicos já manifestam arrependimento, percebendo que perderam mais do que ganharam com a ruptura do livre comércio.
O “New York Times” destaca que a criação de uma Zona de Livre Comércio envolvendo a União Europeia e os quatro países do Mercosul representa uma nova era de cooperação global, contrastando com a postura coercitiva adotada pelos Estados Unidos. Já o “Wall Street Journal” evidencia que esse pacto visa atenuar o impacto das tarifas americanas e reduzir a dependência econômica da Europa em relação à China, reiterando que os interesses da EU em relação ao comércio global permanecem intactos, independente da oposição de Trump.
Os Benefícios para o Brasil e o Mercosul
O presidente Lula, que perdeu a chance de assinar o acordo em dezembro devido a pressões políticas internas na Itália, elogiou a aprovação do pacto, destacando que ele respeita as regras do direito internacional. A posição da Itália tornou-se crucial, sendo a terceira maior população da União Europeia, e seu apoio, aliado ao de países como Alemanha e Espanha, foi determinante para a aprovação no Parlamento Europeu.
A resistência de grandes produtores agrícolas da UE, como França e Polônia, que temiam perder tarifas protecionistas, foi superada, e a maioria favorável ao acordo foi formada por 21 países. O presidente francês, Emmanuel Macron, enfrentou pressões políticas internas e votou contra o acordo, evidenciando a complexidade das negociações.
Perspectivas Econômicas e Sustentabilidade
Desde o início das negociações em 1999, ainda sob a presidência de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil triplicou sua produção agrícola, tornando-se um dos maiores exportadores mundiais de produtos como carne de frango e soja. O acordo com a UE deve potencializar ainda mais esses números, permitindo um acesso facilitado a mercados estratégicos.
Os países do Mercosul, em especial o Brasil, precisam agora se preparar para a redução das tarifas protecionistas nas importações de produtos industriais, enquanto a União Europeia fará o mesmo em relação aos produtos agrícolas. Este movimento deve ser gradual, respeitando as metas ambientais estabelecidas pelo Acordo de Paris, do qual os EUA se distanciaram sob a administração de Trump.
O Papel da União Europeia no Brasil
Além disso, a União Europeia é o maior investidor estrangeiro no Brasil, um fator que deve ser levado em consideração nas futuras relações comerciais. O acordo não apenas abre portas para exportações brasileiras, mas também para investimentos em setores como energia e infraestrutura, onde empresas europeias já possuem uma presença significativa.
No aspecto econômico, o acordo pode ser um divisor de águas para o Brasil, que, em um cenário de tensões com os EUA, busca diversificar seus parceiros comerciais e fortalecer sua posição no comércio global. O potencial de crescimento em setores como café, celulose e frutas é promissor e pode levar a uma transformação significativa no comércio entre as duas regiões.
Desafios à Vista
Entretanto, o acordo não está livre de desafios. Para proteger seus agricultores, a União Europeia impôs cotas de importação para produtos sensíveis, como carne e açúcar. Isso exigirá um ajuste cuidadoso para evitar impactos negativos em ambos os lados. O processo de implementação deverá ser monitorado de perto, garantindo que os interesses de ambos os blocos sejam respeitados.
A celebração do acordo coincide com um momento de reafirmação da democracia no Brasil, especialmente após os eventos de janeiro de 2023, quando o país enfrentou uma tentativa de golpe. Neste contexto, o governo Lula busca consolidar um futuro mais integrado e cooperativo, tanto regionalmente quanto globalmente.

