A estratégia do Brasil para um protagonismo nas relações com a Europa
Os líderes europeus têm buscado se reunir com o Palácio do Planalto para agendar uma conversa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que optou por não comparecer à assinatura do acordo Mercosul-União Europeia, marcada para Assunção, no Paraguai. Atualmente, o bloco sul-americano está sob a presidência paraguaia, o que levanta questões sobre o papel do Brasil na coordenação das negociações internacionais.
Essa movimentação tem como objetivo destacar a figura de Lula e a do governo brasileiro, apresentando o país como o principal fiador do acordo entre os dois blocos econômicos. Fontes próximas ao Palácio do Planalto afirmaram que Lula almeja uma “foto da vitória” ao lado dos principais líderes da União Europeia na véspera da assinatura do tratado, a fim de comunicar um protagonismo brasileiro nas tratativas.
A estratégia inclui também evitar dividir o palco com o presidente argentino, Javier Milei, com quem Lula mantém uma relação protocolar e distante. O presidente brasileiro receberá as autoridades europeias no Palácio do Itamaraty, no Rio de Janeiro, onde deverá ocorrer uma declaração conjunta que enfatizará o papel do Brasil como o principal negociador político do acordo.
Embora o evento em Assunção conte com a presença de presidentes do Paraguai, Uruguai e Argentina, além de Ursula von der Leyen e António Costa, a diplomacia brasileira considera a reunião no Itamaraty de maior relevância em comparação à cerimônia programada para o dia 17 de dezembro.
Enquanto os mandatários da Argentina, Uruguai e Paraguai confirmaram presença no evento de sábado, o Brasil será representado apenas pelo chanceler Mauro Vieira, que ocupa a liderança do Ministério das Relações Exteriores (MRE). Em resposta a essa situação, o governo brasileiro minimiza a ausência de Lula e critica o que considera um “movimento político” do Paraguai.
Autoridades brasileiras afirmam que o governo paraguaio tentou elevar o nível do encontro a chefes de Estado em cima da hora, enquanto a avaliação do Itamaraty é de que a assinatura do acordo deveria ocorrer sob a responsabilidade dos chanceleres. A costura do acordo com a aprovação europeia envolveu uma negociação direta entre Lula e a primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni.
Informações provenientes do governo revelam que, em uma ligação feita no final de 2025, pouco antes da Cúpula de Foz do Iguaçu, Meloni compartilhou com Lula suas dificuldades políticas relacionadas a agricultores italianos e pediu paciência ao presidente brasileiro.
Esse pedido de adiamento possibilitou que o governo italiano se alinhasse à Alemanha e à Espanha, isolando a resistência da França, liderada pelo presidente Emmanuel Macron, e assegurando que o texto do tratado estivesse pronto para assinatura nesta semana.
O acordo, que estava previsto para ser assinado em 20 de dezembro, ainda sob a presidência brasileira do Mercosul, foi um tema que deveria ter sido abordado em Foz do Iguaçu-PR. Contudo, o texto só avançou em janeiro de 2026, quando a União Europeia finalmente aprovou o tratado, abrindo caminho para a cerimônia que ocorrerá no Paraguai.
Apesar desse avanço significativo, a resistência de agricultores europeus, principalmente na França, continua a ser uma barreira. Eles temem que a entrada de produtos agrícolas do Mercosul, como a carne, aumente a concorrência e pressione os preços internos, o que pode afetar as etapas seguintes de aprovação do acordo.
Os próximos passos na implementação do tratado incluem a assinatura formal e a subsequente análise e aprovação do acordo pelo Parlamento Europeu. Dependendo da interpretação jurídica, algumas partes do tratado poderão exigir aprovação nos parlamentos nacionais dos países europeus, o que poderá influenciar ainda mais a dinâmica das relações comerciais entre o Mercosul e a União Europeia.

