Eduardo Cunha e sua Nova Fase Política
“Esqueçam o que se foi; não vivam no passado. Vejam, estou fazendo uma coisa nova!” Com essas palavras, Eduardo Cunha, ex-deputado federal, usou um versículo do Livro de Isaías para desejar um “feliz 2026” aos seus seguidores na virada do ano. A escolha do versículo reflete a tentativa de Cunha de se reinventar, após a queda em desgraça durante a operação Lava-Jato, que culminou em sua cassação e prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Agora, ele busca apoio nas crenças religiosas e em pautas conservadoras, como a sua posição contrária ao aborto, enquanto trilha um caminho desafiador para retornar ao cenário político.
A jornada de Cunha, que antes era uma figura influente na política do Rio de Janeiro, começa em Minas Gerais. Ele adquiriu pelo menos cinco emissoras de rádio, principalmente voltadas ao público evangélico, e também investe financeiramente em patrocinadores como o Uberaba Sport Club, um clube da segunda divisão do Campeonato Mineiro. “Mudei de residência, vida profissional, era natural que mudasse minha vida política”, afirma ele. O ex-deputado tem se reunido com lideranças políticas e religiosas e participado de programas em suas rádios, adotando uma estratégia semelhante àquela que o levou a ser eleito anteriormente. Recentemente, ele também transferiu seu domicílio eleitoral para Minas, uma movimentação que visa evitar a competição de votos com sua filha, Dani Cunha, que tentará a reeleição na Câmara dos Deputados.
Embora esteja há quase dez anos sem mandato, Eduardo Cunha continua a exercer influência. Em novembro, ele foi responsável por direcionar uma emenda de 1,05 milhão de reais para João Pinheiro, uma cidade do noroeste de Minas Gerais. Embora oficialmente creditada ao líder do Republicanos na Câmara, Gilberto Abramo, foi Cunha quem recebeu o agradecimento em vídeo do prefeito Gláucon Cardoso. Em Brasília, sua filha, Dani, conseguiu reviver uma proposta de emenda à Constituição que, se aprovada, poderia proibir o aborto ao determinar que a vida se inicia na concepção. Essa emenda foi aprovada na Comissão de Constituição e Justiça no final de 2024 e agora aguarda votação.
O ex-deputado não parece preocupado com a questão da inelegibilidade. Cunha acredita que este impedimento se extinguirá no início de 2027, o que o permitirá concorrer nas próximas eleições. Ele argumenta que esse prazo foi calculado a partir do término de seu último mandato em 2019, apesar de ter sido cassado em 2016. Sobre essa experiência, ele admite não guardar ressentimentos, alegando que sua cassação foi um acontecimento puramente político, resultado de um desentendimento com o então presidente da Câmara, Rodrigo Maia. “Ele não me deu os mesmos direitos que o Glauber Braga teve agora, por exemplo”, compara.
No discurso de campanha, Cunha tenta se posicionar como um político essencial em tempos de crise. Ele destaca sua “capacidade de articulação” e seu “papel central na organização de votações complexas”. Contudo, a realidade atual da Câmara, sob a liderança de Hugo Motta, seu ex-aluno, é marcada por desorganização. Apesar de negar que Motta seja seu discípulo, Cunha ressalta que seu aliado chegou à posição de forma diferente. “Ele age bem diferente de mim pelo momento em que foi eleito”, reflete.
A trajetória de Cunha é marcada por altos e baixos. Em 2016, ele foi afastado do cargo por decisão do Supremo Tribunal Federal após ser acusado de usar sua posição para obstruir a Lava-Jato. Em seguida, foi preso por corrupção relacionada à compra de um campo de petróleo pela Petrobras e condenado a quinze anos de prisão. Contudo, ele foi liberado em 2020 para cumprir pena em casa, sendo que sua condenação foi anulada pelo STF em 2023, por questões processuais.
Sem mais pendências legais, Cunha agora enfrenta o desafio de conquistar a confiança dos eleitores. Tentou voltar à Câmara em 2022, mas sua candidatura pelo PTB não teve sucesso, resultando em apenas 5.044 votos em São Paulo. Para sua próxima empreitada, ele já planeja mudar de partido, uma vez que não pretende permanecer no Republicanos. Cunha processa o senador Cleitinho Azevedo, que questionou publicamente a possibilidade de os mineiros votarem nele. O ex-presidente da Câmara acredita que o eleitorado pode ter esquecido seu passado. O tempo revelará se a nova fase de Cunha será bem-sucedida.

