A Potência de ‘Caminhos Selvagens’
Na noite de quarta-feira, 28 de janeiro, o Rio de Janeiro recebeu, com entusiasmo, o show “Caminhos Selvagens” no Teatro Riachuelo. A apresentação marcou uma nova fase para Catto, simbolizando seu renascimento como Vênus, uma representação de poder e sensualidade. O espetáculo atraiu uma plateia ardorosa, que se entregou às emoções e ao talento da artista.
Após dois anos de sucesso com o disco e show “Belezas são coisas acesas por dentro”, onde explorou o repertório de Gal Costa (1945 – 2023), a cantora e compositora consolidou sua identidade feminina ao retornar ao caminho autoral com “Caminhos Selvagens” (2025). Lançado em maio do ano passado, o álbum traz canções confessionais, como a hit “Eu te amo” (2025), que ressoaram em um ambiente rock intenso.
Um Show Marcante e Performático
Durante o show, Catto elevou a já vibrante sonoridade do indie rock presente no álbum, produzido com a colaboração de Fabio Pinczowski e Jojô Augusto. Desde a abertura com “Eu não aprendi a perdoar” (2025), a artista demonstrou uma postura performática e um alcance vocal que a destacaram no cenário musical brasileiro desde o lançamento de “Fôlego” (2011).
A batalha contra a indústria fonográfica, que por vezes tentou espremer sua voz em fórmulas comerciais, não foi em vão. Catto conseguiu romper esse ciclo e, a partir de “Tomada” (2015), tomou as rédeas de sua carreira. “Caminhos Selvagens”, tanto no formato de disco quanto no espetáculo, é um verdadeiro atestado de sua liberdade criativa.
Força nas Apresentações e na Banda
Mesmo as faixas menos impactantes do disco ganharam força ao serem apresentadas ao vivo. Um exemplo é “Solidão é uma festa” (2015), que se destacou graças à energia da banda, composta por músicos de peso como a baterista Michele Abu, o guitarrista Jojô Inácio, o baixista Gabriel Mayall e a tecladista Júlia Kluber. Júlia, aliás, dividiu os vocais com Catto em “Saga” (2009), canção que marcou o início da trajetória da gaúcha de Porto Alegre (RS), agora radicada em São Paulo (SP).
Catto se deixou levar por uma pulsão erótica que permeia suas canções, uma característica que se alinha perfeitamente à libertadora “Canção de Engate” (1984), uma joia do cantor e compositor português António Variações (1944 – 1984), reinterpretada por ela em seu álbum “Catto” (2017), um dos trabalhos mais primorosos de sua discografia autoral.
A Interação com a Plateia e o Repertório Variado
Os gritos de “Gostosa” e “Maravilhosa” vindos da plateia criaram uma atmosfera vibrante, enquanto a artista expunha sentimentos de amor, gozos e cicatrizes em composições como “Madrigal” e a faixa-título “Caminhos Selvagens”. Apesar de estar ciente dos riscos de afastar-se do repertório de Gal Costa, Catto incluiu três músicas de seu trabalho anterior, enriquecendo o show com um repertório essencialmente autoral.
O público pôde se deliciar com a balada “Nada Mais” (Stevie Wonder, 1980, traduzida para o português por Ronaldo Bastos, 1984), a canção “Negro Amor” (Bob Dylan, 1965, na versão de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, 1977), apresentada em um tom folk, e a icônica “Vaca Profana” (Caetano Veloso, 1984), que ganhou uma interpretação roqueira e quase carnavalizante, completamente em sintonia com o calor do show.
Surpresas e Expectativas para o Futuro
Uma das surpresas da noite foi a inclusão de “Bad Girl” (Madonna, Shep Pettibone e Anthony Shimkin), um clássico do álbum “Erotica” (1992), que se encaixou perfeitamente na abordagem de Catto sobre amor e desejo. A artista se posiciona como uma mulher que busca amor e prazer, que não hesita em desafiar aqueles que espalham mentiras sobre ela.
O show “Caminhos Selvagens” não é apenas uma apresentação musical; é uma declaração de liberdade, um manifesto de força e sensualidade que promete ecoar na memória do público por muito tempo. Catto, com sua voz potente e presença de palco, reafirma seu lugar no cenário musical brasileiro, deixando claro que seu renascimento é apenas o começo de uma nova jornada.

