A realidade de Paraty sob a sombra do crime organizado
A crescente presença do Comando Vermelho em Paraty, localizada na Costa Verde fluminense, está redefinindo o cotidiano dos moradores, afetando o comércio local e até mesmo os pontos turísticos da cidade. A situação se agrava especialmente nos bairros próximos ao Centro Histórico, onde a violência e a exploração econômica se tornaram parte do dia a dia. Moradores relatam casos alarmantes de expulsões e extorsões, revelando um cenário de medo e insegurança.
Essas informações foram originalmente divulgadas pelo jornal O Globo, em uma reportagem assinada por Bruna Martins. Os dados indicam que a facção, agora firmemente estabelecida na cidade, ampliou seu domínio tanto territorial quanto econômico, repetindo dinâmicas já observadas em outras áreas do estado.
A Praça da Paz, inaugurada em 2016 e que deveria ser um espaço de lazer com pista de skate, parquinho e quadra de futebol, é um reflexo do abandono e do temor que permeiam a área. Situada a poucos minutos do Centro Histórico, essa praça fica entre as comunidades da Ilha das Cobras e da Mangueira, que vêm sendo alvo de disputa por facções desde 2010, quando foram implementadas as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) no Rio de Janeiro. Durante esse período, o Comando Vermelho controlava a Ilha das Cobras, enquanto o Terceiro Comando Puro dominava a Mangueira.
Histórias de dor e resistência
Os conflitos entre os grupos criminosos marcaram essa fase conturbada. Alice, nome fictício para proteger a identidade de uma moradora da Mangueira, compartilha sua triste realidade: “Perdi ao menos 20 amigos, todos adolescentes envolvidos com o tráfico. Um deles foi assassinado no mercado local dias depois de me contar que queria abandonar o crime.” Segundo Alice, sua casa, que antes era cheia de amigos, agora está vazia. “As pessoas acham que Paraty é só o Centro Histórico e as praias, mas ninguém vê o que acontece por aqui. Ao chegar à Praça da Paz, o clima muda. É triste, muito triste.”
Em 2021, o Comando Vermelho tomou o controle da Mangueira após a morte de líderes rivais, provocando uma onda de expulsões, incluindo a de Alice e sua família. “Eles chegaram armados e nos deram 24 horas para sair. Foi horrível, saímos com o que vestíamos e nossos cães. Não podemos voltar, mas mesmo que pudéssemos, não voltaríamos. O medo é grande. É meu bairro, onde nasci, fiz amigos, mas a tristeza é saber que tudo isso poderia ter sido evitado. Não há políticas públicas que nos protejam; somos apenas esquecidos”, desabafa.
As investigações sobre as expulsões continuam a cargo da 167ª Delegacia de Polícia. Um caso recente ocorreu no Morro do Ditão, onde traficantes ameaçaram uma moradora com uma arma, acusando-a de ser informante. A Polícia Civil investiga ainda outros episódios que evidenciam a expansão da facção na região.
O temor entre os moradores e os impactos no turismo
Outro morador da Mangueira, que também optou por não revelar sua identidade, lamenta o aumento na venda de drogas nas ruas do bairro, onde muitos dos envolvidos são adolescentes. Dados do Instituto de Segurança Pública mostram que, no ano passado, 48 menores foram apreendidos na cidade, um aumento em relação a 28 no ano anterior. “A situação está insustentável. Evito passar por certas ruas, mesmo conhecendo todos aqui. Já vi carros de turistas que vêm comprar drogas, gastando até R$ 600 de uma vez. Fui obrigado a enviar meus filhos para outro estado, onde tenho familiares”, conta.
Um policial civil que preferiu não se identificar revelou que o Comando Vermelho, agora consolidado em Paraty, está explorando atividades econômicas nos bairros, seguindo o mesmo padrão observado nas áreas dominadas pela facção na capital. Esse domínio também impacta serviços essenciais. No Condado, a cerca de cinco quilômetros do centro, um professor da rede pública mencionou que os ônibus municipais deixaram de circular nas áreas internas, operando apenas na via principal.
A presença da facção também afeta áreas turísticas, como a Praia do Sono e Trindade, que são conhecidas pela cultura alternativa e pelo fluxo contínuo de visitantes. Relatos indicam que traficantes tentaram extorquir barqueiros e proprietários de estacionamentos, chegando a cobrar valores indevidos de turistas para acesso a esses locais. Em algumas situações, moradores locais se uniram para enfrentar os criminosos e proteger suas comunidades.
Reunião pública e demandas da comunidade
Atualmente, a 167ª DP investiga pelo menos seis casos relacionados à expansão do Comando Vermelho em diferentes áreas da região, como Paraty-Mirim e Praia de Cajaíba. As investigações abrangem denúncias de extorsão e cobrança de percentuais sobre a venda de terrenos e imóveis, além de pressões sobre empresas de turismo. Apesar da gravidade da situação, ainda não surgiram denúncias formais no Centro Histórico, o cartão-postal da cidade.
A situação alarmante levou a uma reunião pública na Câmara Municipal, onde moradores e autoridades discutiram a falta de uma polícia comunitária em Trindade e a ausência de ações efetivas do ICMBio. O prefeito Zezé (Republicanos) expressou sua preocupação com a falta de um juiz na cidade, enquanto o comandante da Segunda Companhia Independente da Polícia Militar, tenente-coronel Lourival Belitardo, anunciou a chegada de 90 novos agentes em março.
Desafios enfrentados pela comunidade local
Além da violência, os moradores apontam problemas estruturais que dificultam a vida em Paraty, como os altos custos de aluguel. “Uma casa de dois quartos custa mais de R$ 2 mil por mês. Considerando que a maioria ganha um salário mínimo, fica inviável viver aqui. Nós, paratienses, não temos acesso aos equipamentos culturais da cidade. Vivemos à margem, fazendo o que podemos para garantir a sobrevivência”, observa Alice.
Entre as belas paisagens que atraem turistas e a dura realidade enfrentada pelos moradores dos bairros afastados, Paraty enfrenta o avanço do crime organizado e o desafio urgente de retomar o controle de áreas que, segundo os residentes, têm recebido cada vez menos atenção do Estado.

