Crise no IBGE: Exonerações e Credibilidade em Xeque
A recente turbulência no IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), sob a liderança do presidente Marcio Pochmann, reacendeu os questionamentos sobre a confiabilidade dos dados produzidos pela instituição. Desde 2024, a crise se arrasta e, em janeiro, a exoneração de duas servidoras, incluindo Rebeca Palis, coordenadora responsável pelas contas nacionais, trouxe à tona um novo foco de tensão às vésperas da divulgação do PIB (Produto Interno Bruto), marcada para 3 de março.
Essa decisão surpreendeu muitos técnicos e especialistas, especialmente em um momento tão crítico para a divulgação de um dos principais indicadores econômicos do país. Nas redes sociais, perfis de oposição ao governo Lula (PT), que indicou Pochmann para o IBGE em 2023, levantaram a suspeita de manipulação de dados, uma acusação prontamente rebatida por parte dos profissionais do instituto.
Para aqueles que trabalham ou já trabalharam no IBGE, a essência da crise reside nas divergências sobre os projetos conduzidos pela gestão atual. Funcionários têm classificado a abordagem de Pochmann como autoritária e midiática, enquanto a direção do instituto refuta essas alegações em diversas ocasiões.
Wasmália Bivar, que ocupou a presidência do IBGE de setembro de 2011 a julho de 2016, defende a integridade dos métodos utilizados na produção de dados. “Nas contas nacionais, uma equipe dedicada coleta e consolida uma ampla gama de informações para chegar aos resultados finais. A ideia de manipulação é leviana”,” declarou Bivar. Ela acredita que alterações nas estatísticas exigiriam uma conspiração ampla, algo que, segundo ela, não ocorre.
Impactos da Crise antes das Eleições
O impacto negativo da crise na imagem do IBGE é uma preocupação crescente, especialmente com a aproximação das eleições de 2026. Roberto Olinto, que foi presidente do órgão entre junho de 2017 e fevereiro de 2019, enfatiza que, com a proximidade do pleito, há o risco do IBGE ser utilizado como ferramenta de crítica ao governo. “Um instituto que deveria operar com discrição pode se tornar um alvo nas campanhas eleitorais”, alerta Olinto, que critica a atual gestão por decisões consideradas inadequadas.
A presidência do IBGE, em resposta a solicitações, afirmou que, como em qualquer transição, as divulgações não serão afetadas. Além disso, ressaltou que, desde 2023, mais de 20% da força de trabalho foi renovada com concursados, e que o órgão teve um aumento significativo em seu orçamento. O IBGE também reafirmou seu compromisso com o Plano de Trabalho, que prevê a publicação de 269 relatórios em 2026.
A crise no IBGE começou a tomar forma no segundo semestre de 2024, quando o sindicato dos servidores, Assibge, e o corpo técnico se opuseram a iniciativas da direção, como a criação da fundação IBGE+, que visava elaborar pesquisas para a iniciativa privada. Os trabalhadores acusaram a gestão de falta de diálogo, levando à suspensão da proposta em janeiro de 2025. A tensão aumentou com outras mudanças contestadas no estatuto do IBGE.
Após a exoneração de Rebeca Palis, que liderava um complexo processo de revisão das contas nacionais, a repercussão foi intensa. Outros três servidores do mesmo departamento também pediram exoneração em solidariedade a ela. Na sequência, em 28 de janeiro, Ana Raquel Gomes da Silva também foi desligada, uma atitude considerada retaliatória pelo sindicato, que denunciou uma “caça às bruxas” no IBGE. Ambas haviam manifestado publicamente críticas à gestão.
A Defesa do IBGE e a Reação do Sindicato
Marcio Pochmann, em resposta às críticas, utilizou o X (ex-Twitter) para afirmar que o IBGE está em boa situação, desafiando as narrativas negativas que circulam. Ele afirmou que os ataques são oriundos de “desconhecedores da realidade” e que a gestão está sendo alvo de rumores infundados.
O Assibge, por sua vez, emitiu um comunicado expressando repúdio às alegações de falta de credibilidade dos dados do IBGE. A entidade ressaltou que questionou exonerações consideradas arbitrárias e defendeu a integridade das metodologias utilizadas nas pesquisas, enfatizando que não aceitariam qualquer manipulação ou alteração dos dados para fins políticos ou propagandísticos.
Wasmália Bivar se alinha com as preocupações dos servidores, criticando a falta de resposta da direção às críticas. Ela lamenta a exoneração de Rebeca e expressa preocupação com possíveis impactos no cronograma da nova base das contas nacionais, destacando que a manipulação dos dados é impossível uma vez que os números são resultado de um processo técnico rigoroso.

