Protestos e Polêmica em Torno do Edital ‘Cultura e Fé’
O recente lançamento do edital ‘Cultura e Fé’ pelo governo do Rio de Janeiro, que visa apoiar produções culturais ligadas a manifestações religiosas, provocou uma onda de protestos entre agentes culturais e levantou importantes questões jurídicas. O edital, divulgado com o intuito de financiar produções relacionadas a quatro segmentos religiosos — católicos, evangélicos, de terreiro e outras religiões — rapidamente se tornou alvo de críticas. Segundo informações do jornal Folha de São Paulo, o clima de insatisfação culminou na organização de um abaixo-assinado que solicita a impugnação do documento, além de um ato programado para o dia 23 deste mês, no centro da cidade, com o propósito de pressionar pela suspensão da iniciativa.
“O Estado é laico, portanto não deve financiar essa confusão entre cultura e fé”, afirmou Marcus Galiña, diretor de teatro e membro do Movuca, ao criticar a proposta. Ele questionou a elaboração do edital, indagando por que não foi criado um texto abrangente que atendesse todos os artistas, independentemente de suas crenças religiosas. Galiña ainda fez críticas severas à proposta, descrevendo-a como “uma iniciativa nefasta que abre um precedente perigoso” ao misturar religião, cultura e política.
Divergências Jurídicas Sobre a Legalidade do Edital
A situação gerou debates acalorados entre especialistas em direito cultural, que apresentam opiniões divergentes sobre a constitucionalidade do edital. A advogada Cris Olivieri, por exemplo, enfatizou os problemas jurídicos que a proposta levanta. “O equívoco tem início quando eles fazem um edital vinculado à fé, que é uma questão muito particular. Não cabe ao Estado interferir, apoiar ou não apoiar”, afirmou, ressaltando que a fé não deve ser objeto de apoio governamental.
Oliveiri também analisou as implicações constitucionais do edital, explicando que o apoio estatal deve ser direcionado à preservação do patrimônio histórico, que pode incluir templos de diferentes religiões, mas não à promoção de uma fé específica. “O próprio nome do edital o transforma em algo inadmissível”, completou.
Em contraposição, a advogada Aline Akemi Freitas argumentou que não vê ilegalidade na proposta, destacando que não há violação da laicidade. “Ele não está fomentando ou direcionando recursos para uma religião em particular”, afirmou. Freitas enfatizou o lado cultural das expressões religiosas, alertando que a falta de apoio público a essas comunidades pode resultar em um apagamento da memória e da história do país.
Além disso, a advogada pontuou que ações culturais já incorporam bens de origem religiosa e que a identidade da nação é composta por diversas tradições, incluindo as religiosas. “O Estado não pode fomentar a ação religiosa, mas ele pode incentivar ações que tenham um viés público”, concluiu.
Defesa do Edital pela Secretaria de Cultura
Em resposta às críticas, a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa defendeu o edital, esclarecendo que ele não financia religiões ou dogmas, mas sim expressões culturais. Em nota, a administração estadual afirmou que propostas de natureza ritualística, doutrinária ou litúrgico-religiosa estão vetadas. “A fé, neste contexto, é compreendida como expressão cultural, simbólica, histórica e artística, presente em diversas linguagens, territórios e tradições do Brasil”, ressaltou o governo do Rio.
Além disso, a Secretaria reafirmou que o edital não favorece nenhuma religião específica e que os recursos não são destinados a instituições religiosas, reforçando a intenção de apoiar a cultura em suas múltiplas formas e manifestações. O desdobramento dessa polêmica promete continuar a mobilizar a sociedade civil e o debate jurídico sobre a laicidade e o papel do Estado na cultura.

