Disputa Geopolítica no Setor de Petróleo
A relação entre Brasil e Venezuela tem enfrentado dificuldades, com a falta de dólares, a insegurança jurídica e o declínio do poder aquisitivo da população dificultando as transações comerciais. O ex-presidente Donald Trump deixou claro que o controle do comércio de petróleo, a commodity mais vital do mundo, é um dos principais motivos por trás da sua intervenção militar na Venezuela, ação sem precedentes dos EUA na América do Sul. A região, detentora da segunda maior reserva de petróleo do planeta, atrás apenas do Oriente Médio, está se tornando um ponto central na disputa global por recursos energéticos.
Nos últimos anos, a China tem aumentado significativamente suas importações de petróleo da América do Sul, transformando-se de mera cliente a investidora no setor. Dados do setor mostram que as duas maiores economias do mundo, EUA e China, representam 35% do consumo global de petróleo, conforme a Agência Internacional de Energia.
Especialistas analisam que a movimentação de Trump na Venezuela, que abriga a maior reserva conhecida de petróleo do mundo, com uma produção que ainda está longe de seu potencial máximo, é parte de sua estratégia para reconfigurar a geopolítica energética da América do Sul. Ele busca consolidar a presença de empresas americanas na região, ao mesmo tempo em que tenta conter o avanço das empresas chinesas, que já estão realizando investimentos bilionários em novas fronteiras petrolíferas em países como Brasil, Guiana, Suriname e Argentina.
Expansão Silenciosa da China
Ainda que a presença das empresas americanas seja predominante, a atuação das companhias chinesas começa a ganhar terreno. Os principais fornecedores de petróleo da China na América do Sul são Brasil e Venezuela, que juntos representam cerca de 10% das importações de petróleo do país liderado por Xi Jinping. Desde a última década, empresas chinesas têm firmado parcerias com a Petrobras e outras companhias para explorar o petróleo na região, garantindo acesso a reservas estratégicas, como as do pré-sal brasileiro.
No entanto, essa movimentação ainda é discreta e não faz sombra à força das petroleiras americanas, mas há expectativa de crescimento com a abertura de novas áreas de exploração, como a Margem Equatorial, no litoral norte da América do Sul. Especialistas notam que a expansão chinesa é marcada por um investimento que escapa das análises tradicionais do setor, já que muitos projetos são realizados em associação com empresas de outros países ou pela aquisição de ativos.
Investimentos Chineses Subestimados
Um estudo da Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) revelou que entre 2020 e 2024 a China investiu cerca de US$ 1,3 bilhão no setor de óleo e gás na América Latina, embora o Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) estime que os investimentos chineses no Brasil nesse período chegaram a US$ 6 bilhões. Como observa Fernanda Brandão, coordenadora do Curso de Relações Internacionais da Mackenzie Rio, os EUA têm uma longa tradição de investimento na região, especialmente no petróleo, mas a China tem ampliado sua presença, não apenas no setor energético, mas também em energia renovável, mineração, tecnologia e infraestrutura.
Impactos da Ofensiva Americana
Marcelo de Assis, sócio da Consultoria MA2Energy, aponta que a expansão da China na América do Sul representa um desafio para os interesses norte-americanos. Contudo, ele acredita que a ofensiva de Trump pode não ser suficiente para afastar a China do petróleo sul-americano, uma vez que o país asiático continua a necessitar dessa fonte de energia, mesmo com investimentos em energia renovável.
Em um cenário onde o fornecimento de 400 mil a 450 mil barris diários da Venezuela para a China pode ser facilmente compensado por outros fornecedores, a estratégia americana parece ser mais uma sinalização política do que uma alteração significativa na dinâmica econômica chinesa na região. O diretor de Conteúdo do CEBC, Tulio Cariello, sublinha que a China é o principal comprador de petróleo do Brasil, representando cerca de 60% das exportações brasileiras, e sua presença no Brasil vai continuar enquanto houver oportunidades de investimento.
Mudanças no Cenário Energético
Historicamente, até os anos 2000, as empresas europeias e americanas dominavam a exploração de petróleo em países sul-americanos. A virada ocorreu a partir de 2010, quando os EUA passaram a focar no seu próprio shale gas, permitindo a entrada de estatais chinesas na região. Isso incluiu a exploração conjunta de megacampos do pré-sal com a Petrobras e outros consórcios. Hoje, as empresas chinesas como CNOOC, CNPC e Sinopec são responsáveis por 6,2% da produção de petróleo no Brasil.
Com a administração Trump, os EUA passaram a enxergar o petróleo como um recurso estratégico novamente. O republicano indicou recentemente que deseja influenciar os preços do petróleo para reduzir os custos de combustíveis nos EUA, o que pode entrar em conflito com os interesses das petroleiras. A advogada especializada em energia Irini Tsouroutsoglou alerta para os riscos políticos e a fragilidade estrutural da Venezuela, afirmando que serão necessários investimentos significativos para revitalizar a produção do país.
Enquanto isso, a China continua a buscar diversificar seus investimentos. Nos leilões recentes no Brasil, tanto empresas americanas quanto chinesas se destacaram, reforçando a ideia de que a competição por recursos na América do Sul está longe de acabar.

