Reflexões de um Roteirista
O roteiro pode ser um território delicado, especialmente quando se trata de uma série icônica como “Friends”. Adam Chase, que integrou a equipe da série a partir de 1994, se recorda de como o seu primeiro emprego no campo da comédia foi, na verdade, um aprendizado. Após o cancelamento de “Phenom”, ele se viu desolado aos 22 anos, mas a reviravolta veio logo em seguida. “Só porque estava disponível, consegui um emprego em ‘Friends’. Esperava que isso fosse dar em algo, e, até hoje, nem consigo acreditar no que aconteceu”, revela Chase em entrevista ao GLOBO.
Natural de Nova Jersey, o roteirista de 54 anos não apenas fez parte da equipe de roteiros de “Friends”, mas também assumiu a função de produtor executivo, o que lhe rendeu uma experiência valiosa em Hollywood. Atualmente, ele estará no Rio2C, um evento de criatividade que ocorre na Cidade das Artes, na Barra da Tijuca, entre os dias 26 e 31 de maio. No dia 28, ao lado de Fábio Porchat, participará do painel intitulado “Friends & Porta dos Fundos: Amizade e Riso como Linguagem Universal”.
A Linguagem Universal na Era Digital
Chase discorre sobre a relevância de se escrever de forma verdadeira: “Quando escrevo sobre algo que me toca realmente, é mais fácil para o público se identificar”, explica. Ele acredita que narrativas específicas podem alcançar um apelo universal, especialmente em um mundo repleto de plataformas de streaming e redes sociais.
Ele e seus co-criadores, David Crane e Marta Kauffman, abordavam suas experiências pessoais de forma intuitiva, refletindo sobre a vida após a faculdade. Contudo, Chase admite um olhar crítico sobre algumas decisões tomadas. “Se fosse para fazer tudo de novo, provavelmente não teríamos seis atores brancos. Acredito que, com o passar do tempo, as mudanças na sociedade também nos influenciam”, comenta.
Ainda que muitos de seus episódios tenham sido questionados devido às novas demandas sociais, a Geração Z, que nasceu entre 1997 e 2010, continua a aproveitar esses conteúdos. Conforme uma pesquisa do National Research Group, 60% dos jovens preferem reviver programas clássicos em vez de acompanhar os lançamentos atuais. As filhas de Chase ilustram bem essa tendência: sua filha de 12 anos adora “Modern Family” e a de 10, por sua vez, é fã de “Três é Demais”. “Quando você se conecta a um programa, não quer que termine tão rápido. Deseja revisitá-lo e se surpreender novamente”, afirma.
Reflexões Sobre a Indústria Atual
Chase expressa um desejo de ver mais produções que durem mais tempo, pois muitos programas bons acabam sendo cancelados antes de realmente se desenvolverem. “O conteúdo do catálogo é valioso, pois permite que você reassista e conheça melhor os personagens”, observa.
Quanto à ideia de um novo “Friends”, Chase é categórico: “O próximo ‘Friends’ será algo completamente diferente. Apenas no futuro, poderemos enxergar suas semelhanças com o original”. Entre suas comédias atuais preferidas, ele menciona “Hacks” e “Espião Infiltrado”. Atualmente, ele está focado na criação de uma série de estilo falso documentário e em uma comédia natalina.
A Saturação da Criatividade
Um dos desafios enfrentados por Chase hoje é a saturação da atenção e a competição com novos criadores que surgem online. “Você está competindo com universitários que têm ideias engraçadas e autênticas. É uma luta constante para apresentar algo fresco e original”, reflete, alertando sobre a importância de não se acomodar e continuar inovando. Com 140 episódios de “Friends” em seu currículo, Chase sente que possui traços de cada um dos protagonistas, como a obsessão por fazer piadas de Chandler e a lealdade inabalável de Joey.
Ele relembra que cada personagem era como um cubo mágico, cada um recebendo seu destaque na temporada. Porém, um talento, em especial, sempre se sobressaía: Matthew Perry, o icônico Chandler, que faleceu em outubro de 2023. “Ele era um gênio. Tê-lo como parte da equipe era como ter outro roteirista ao nosso lado”, recorda.
A Contribuição de Matthew Perry
Chase destaca a habilidade de Perry em trazer novas ideias e sugestões, muitas vezes surpreendendo a todos no set. “Matthew e Matt LeBlanc costumavam improvisar as cenas, tornando tudo ainda mais engraçado. Eu admirava como ele conseguia equilibrar a atuação e a escrita”, admira Chase.
Com suas memórias e lições aprendidas ao longo de sua carreira, Adam Chase continua a contribuir para o universo da comédia, sempre buscando novas formas de contar histórias que ressoem com o público, refletindo a complexidade da vida e as dinâmicas sociais.

