A Celebração da Arte e a Controvérsia Política
Por Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues | 9 de março de 2026
A cultura gaúcha é marcada por tradições profundas e um forte apego às suas raízes, representadas por símbolos como o chimarrão e o churrasco. No entanto, quando se fala em Brasil a nível internacional, o samba, que ressoa dos morros e quintais do Rio de Janeiro, se destaca como a batida que representa a essência do país. O samba vai além da música; ele se torna um símbolo de memória, identidade e expressão popular. É uma arte capaz de transformar desafios em poesia e o cotidiano em celebração.
Durante o carnaval, poucos eventos conseguem transmitir tanta emoção e arte quanto os desfiles das escolas de samba. Ao longo do ano, uma infinidade de pessoas se dedica a criar momentos de beleza efêmera na avenida. Esse esforço coletivo envolve costureiras, compositores, ritmistas, escultores e voluntários que, com talento e paixão, produzem um espetáculo que é uma verdadeira fusão de arte e comunidade. No último carnaval, um ato marcante foi a homenagem a Mestre Ciça.
Moacir da Silva Pinto, mais conhecido como Mestre Ciça, é um nome que ressoa dentro do universo samba. Desde jovem, ele se dedicou ao samba, não em busca de fama, mas seguindo um chamado interno. Nos barracões e quadras das escolas de samba, ele construiu uma trajetória notável, pautada pela disciplina, humildade e amor pelo que faz.
O mestre de bateria desempenha um papel crucial nas escolas de samba, sendo o responsável por coordenar centenas de ritmistas, assegurando que o desfile tenha cadência e emoção. Ciça fez isso durante décadas, combinando técnica e respeito por seus colegas e pela tradição. A homenagem da Unidos do Viradouro, durante o desfile, foi um reconhecimento a sua trajetória. Em um carro alegórico, mestres e sambistas de diferentes escolas se reuniram para celebrar sua contribuição ao samba. Essa ação foi um testemunho de união em um ambiente muitas vezes marcado pela competição e rivalidade.
No entanto, o carnaval deste ano também expôs uma contradição. Enquanto um lado celebrava um artista respeitado, outro se utilizou do desfile — financiado com recursos públicos — para veicular mensagens ideologizadas, misturando o que deveria ser uma celebração cultural com propaganda política. Isso gerou um desvio do verdadeiro espírito do carnaval, que sempre foi de união.
As reações da sociedade foram diversas, refletindo a polarização que caracteriza o Brasil atual. O samba, que nasceu como uma forma de conectar as pessoas, viu-se no meio de um debate ideológico que não deveria estar presente nas festividades. A arte, quando financiada com recursos públicos, precisa representar toda a diversidade da sociedade, sem se tornar um instrumento de militância política.
A cena mais emblemática deste carnaval foi, sem dúvida, a homenagem a Ciça, que simbolizou o respeito mútuo e a celebração da arte. Em contraste com as tentativas de transformar a avenida em um palanque político, a bateria nos lembrou que o Brasil possui um outro ritmo, um que promove a convivência harmoniosa.
Pessoalmente, como carioca e admirador do samba, sempre torci para que o espetáculo prevaleça. Quando a arte se sobressai, quem sai ganhando é o Brasil. No atual cenário, onde as vozes se tornam cada vez mais barulhentas, é crucial que não esqueçamos de ouvir os tambores e deixemos os palanques de lado. A verdadeira representação do país no cenário internacional não está nas disputas, mas no som vibrante da bateria que ecoa na avenida.
Nesse compasso, ainda temos a oportunidade de marchar juntos, como na verdadeira essência do carnaval.
Alexandre Teixeira G. de Castilhos Rodrigues, advogado e escritor (@castilhosadv) – castilhosadv@gmail.com

