Violência e Impactos da Facção no Cotidiano de Paraty
Distante apenas 13 minutos a pé do Centro Histórico de Paraty, as comunidades da Ilha das Cobras e Mangueira têm se tornado cenários de um aumento alarmante da violência, consequência da expansão do Comando Vermelho desde 2010. Durante esse período, as facções começaram a se consolidar nas áreas e a história de Alice, uma jovem caiçara da Mangueira, ilustra bem a realidade de quem vive à sombra do tráfico. Alice, que preferiu não revelar seu sobrenome, perdeu muitos amigos nessa guerra silenciosa. “Perdi pelo menos 20 amigos nessa época, todos muito jovens, com idades entre 13 e 18 anos”, relata a jovem, destacando que a maioria deles estava envolvida com o crime. Tragicamente, um dos mais novos, que sonhava em deixar a vida do tráfico, foi morto poucos dias depois de confidenciar seu desejo de mudança.
As autoridades tentaram implementar Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) em favelas do Rio de Janeiro, mas as comunidades de Paraty não foram poupadas das rivalidades entre facções. Em 2021, o Comando Vermelho assumiu o controle da Mangueira, levando a uma série de expulsões de moradores, como foi o caso da própria Alice e sua família. “Eles chegaram armados, nos deram 24 horas para sair. Foi uma experiência muito dolorosa. Deixei a casa que lutei a vida toda para construir”, disse, com a voz embargada pela emoção. Atualmente, a cidade enfrenta um cenário preocupante, já que o Comando Vermelho controla a maioria das áreas, tornando Paraty um reflexo de problemas sociais que se estendem além do turismo e das belezas naturais.
Conflitos e Expulsões em Comunidades
As expulsões de moradores têm se tornado comuns em Paraty, e a 167ª DP investiga um caso que ocorreu no final do último ano no Morro do Ditão. Um morador, que preferiu não se identificar, mencionou que traficantes ameaçaram uma família a ser informante, reforçando o clima de medo que permeia a comunidade. Jorge, outro residente da Mangueira, também se diz preocupado com a situação. “O tráfico está tomando conta de tudo, e eu tenho evitado passar por algumas ruas. Ver pessoas gastando até R$ 600 em drogas me assusta”, compartilha. Ele tomou a difícil decisão de enviar os filhos para viver em outro estado, preocupado com a possibilidade de envolvimento deles com o tráfico.
Consequências no Turismo e Comércio Local
A situação não afeta apenas os moradores, mas também repercute no comércio e nas atividades turísticas da região. O crescimento das atividades do Comando Vermelho chegou até áreas conhecidas por sua cultura “hippie”, como a Praia do Sono e Trindade. Informações revelam que traficantes estão extorquindo barqueiros e cobrando indevidamente turistas por acesso a praias, situação que gerou um movimento de resistência por parte dos caiçaras. Apesar de algumas tentativas de retomar o controle da situação, as investigações sobre extorsão e exploração territorial pelo Comando Vermelho se acumulam na 167ª DP, que enfrenta desafios devido à falta de depoimentos. O comércio local, que já enfrenta dificuldades, se vê ainda mais ameaçado pela influência e domínio do tráfico, tornando-se um desafio para os moradores e comerciantes que buscam sustentar suas famílias.
Reunião e Propostas de Melhoria
Recentemente, uma reunião pública na Câmara Municipal de Paraty tratou da grave situação de violência e da necessidade de um posto de polícia comunitária em Trindade, além da falta de ações do ICMBio, responsável por reservas ambientais na região. O prefeito Zezé (Republicanos) expressou sua preocupação com a falta de um juiz na cidade, enquanto o tenente-coronel Lourival Belitardo, comandante da Segunda Companhia Independente de Polícia Militar, anunciou o envio de 90 novos agentes em março. As vozes de moradores como Alice e Jorge são unânimes em destacar a necessidade de ações efetivas e políticas públicas que possam oferecer uma alternativa real às comunidades afetadas pela violência do tráfico.
Além da violência, a alta dos aluguéis na cidade também preocupa. Alice menciona que uma casa de dois quartos pode custar mais de R$ 2 mil por mês, um valor inviável para quem vive com um salário mínimo. “Nós, que somos paratienses, não temos acesso aos equipamentos culturais da cidade. Frequentamos o Centro Histórico apenas como trabalhadores, não como turistas”, conclui.

