Desafios da Travessia Diária
As filhas de Francisco Eliseu Deorneles, de 9 e 11 anos, enfrentam um grande desafio todos os dias. Para chegar ao ônibus que as leva às escolas, elas precisam atravessar um rio a pé. A família reside na comunidade Bom Retiro, localizada na zona rural de Coronel Domingos Soares, uma cidade de aproximadamente 4,5 mil habitantes no sul do Paraná.
Segundo o pai, a única forma de fazer essa travessia é pela água, uma vez que não há ponte ou outro acesso que conecte sua casa ao ponto de transporte escolar. “A linha de ônibus escolar passa na margem direita do rio, enquanto nós moramos na margem esquerda. Nossa casa está a cerca de 40 metros do rio, distando 15 km das escolas das meninas e 30 km do centro da cidade”, explica Deorneles.
A residência da família está situada de um lado do rio e o ponto de ônibus, do outro. Ambos os pais trabalham com agricultura familiar e são responsáveis por outro filho pequeno, que ainda não iniciou a vida escolar.
Travessias Múltiplas e Riscos à Saúde
As meninas precisam realizar a travessia do rio duas vezes ao dia, de segunda a sexta-feira. Isso ocorre tanto na ida para pegar o ônibus escolar, que fica a cerca de 600 metros de casa, quanto na volta. Quando o nível de água está elevado, os pais acompanham as filhas, fazendo com que realizem até quatro travessias diárias, o que aumenta o risco de acidentes e problemas de saúde.
“As crianças têm que se molhar para conseguir ir à escola. Uma delas já apresentou problemas de saúde por conta disso. Eu já procurei ajuda na prefeitura, mas até agora não obtive resposta”, lamenta Francisco.
Situação da Comunidade e Possíveis Soluções
A comunidade onde a família vive é um assentamento reconhecido pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) desde os anos 1990. De maneira geral, um assentamento consiste em áreas agrícolas destinadas a famílias que não têm condições financeiras de adquirir uma propriedade rural.
A família Deorneles reside no assentamento Bom Retiro do Butiá, que possui capacidade para 73 famílias e atualmente abriga 59. Em um espaço de 1,7 mil m², eles cultivam alimentos e criam animais, o que dificulta uma mudança para a área urbana.
Francisco destaca que a dificuldade de acesso ao transporte escolar se arrasta desde a chegada da família ao local e tem gerado diversas preocupações.
Resposta das Autoridades e Futuras Ações
O g1 questionou o Incra sobre a falta de uma ponte na região e se essa questão foi considerada antes do reconhecimento do assentamento. O órgão informou que enviou uma equipe ao local em setembro de 2025 e que o lote da família está aguardando uma análise de regularização. Quanto à infraestrutura, a demanda será analisada.
A prefeitura, por sua vez, comunicou que está realizando uma “verificação técnica” para entender a necessidade de intervenções no local e avaliar a viabilidade de uma possível obra. Contudo, não há prazos definidos para a resolução do problema.
“Atualmente, estamos em fase de análise técnica e administrativa, levantando informações sobre a titularidade da área, as condições de acesso existentes e possíveis alternativas de deslocamento na localidade. Como os estudos ainda estão em andamento, não podemos estipular um prazo para a execução de qualquer obra”, afirmou a prefeitura.
Além disso, a administração acionou o Departamento de Educação para avaliar as condições de deslocamento dos alunos e garantir que o acesso à escola não seja prejudicado. O Conselho Tutelar também está envolvido, apresentando alternativas aos pais, como a possibilidade de utilização de uma residência que possuem na área urbana, considerando os riscos da travessia do rio.
A administração reafirma seu compromisso com a segurança dos estudantes e com o direito à educação, tomando todas as medidas necessárias dentro dos limites legais, técnicos e administrativos aplicáveis.

