O Crescente Envolvimento do Crime nas Atividades Empresariais
A realidade brasileira tem se tornado cada vez mais alarmante, especialmente no que se refere à presença do crime em diversos setores da economia. As operações realizadas pela Polícia Federal, Ministério Público e Receita Federal têm colocado em evidência estabelecimentos como postos de gasolina, padarias e até fintechs como alvos de investigações. Essa percepção de que a criminalidade se aproxima do cotidiano empresarial é mais do que uma simples impressão; é um fato evidenciado por dados concretos.
Um ponto importante, segundo o especialista Carnaúba, é o período de adaptação das autoridades, que envolve um mergulho profundo nas investigações para entender os crimes antes de realizar ações como buscas e prisões. “Todo fraudador precisa de uma oportunidade e a sensação de impunidade para agir”, afirma. Essa sensação de impunidade, aliada ao tempo que as autoridades levam para se atualizar em relação aos novos métodos criminosos, resultou em um aumento significativo na prática de fraudes.
Até 15 de dezembro deste ano, foram registradas 3.310 operações pela Polícia Federal, com a soma impressionante de R$ 9,6 bilhões em ativos apreendidos, um aumento de quase 60% em relação ao ano anterior. As operações mais impactantes deste ano, como Carbono Oculto, Quasar e Tank, trazem à tona padrões que se repetem. Essas ações conjuntas atingiram 268 empresas implicadas diretamente em esquemas de lavagem de dinheiro, envolvendo sócios de pelo menos 251 postos de combustíveis em quatro estados do país.
Movimentações Bilionárias e Lavagem de Dinheiro
Nos últimos anos, a lavagem de dinheiro tem se tornado um fenômeno cada vez mais sofisticado. Estima-se que 60 motéis foram utilizados para justificar R$ 450 milhões entre 2020 e 2024. O líder da organização criminosa investigada tinha vínculos com cerca de 100 empresas diferentes, enquanto um contador associado representava impressionantes 941 empresas na Receita Federal. O controle da organização se estendia a mais de 40 fundos de investimento, com um patrimônio total estimado em R$ 30 bilhões.
A soma dos valores movimentados de forma ilícita por diferentes grupos criminosos pode chegar à impressionante quantia de R$ 140 bilhões. A Operação Compliance Zero, que investigou fraudes no Banco Master, denunciado pelo Banco Central, revelou movimentações de R$ 12,2 bilhões relacionadas a créditos inexistentes. Cerca de 1,6 milhão de pequenos investidores se beneficiarão dos recursos recuperados através do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), com desembolsos estimados em R$ 41 bilhões.
Fraudes em Setores Diversos e a Necessidade de Governança
Outras operações, embora menos divulgadas, também têm revelado movimentações financeiras significativas. A Operação Bóreas, deflagrada em outubro, focou em um esquema envolvendo sonegação tributária no setor de ar condicionado, que resultou em uma estimativa de sonegação de R$ 400 milhões e bloqueio de R$ 800 milhões em ativos. Por outro lado, a Operação Opções Binárias, iniciada em 16 de dezembro, investiga plataformas digitais fraudulentas que prometiam lucros fáceis em criptoativos e opções binárias, com movimentação total superior a R$ 1,2 bilhão.
A reflexão sobre mecanismos de incentivo a fraudes, como os que permitiram a atuação do Banco Master, se torna necessária. Especialistas destacam que não é apenas uma responsabilidade do governo combater essas fraudes. “Observamos fundos de pensão públicos investindo em CDBs do Banco Master, que possuíam zero governança, apesar de haver regras específicas”, observa Prates.
Carnarúba, que é especialista em investigações de fraudes, alerta que a falta de conhecimento em governança e compliance nas empresas contribui para a proliferação de fraudes. Muitas organizações ainda não possuem especialistas na área, o que facilita a ação dos criminosos. “Os criminosos se aproveitam dessa falta de vigilância e expertise no Brasil”, conclui. “No fundo, o brasileiro tende a ser ingênuo.”

