Desafios e Assédio: A Realidade das Repórteres no Futebol
Nos últimos meses, o cenário do jornalismo esportivo foi marcado por uma série de episódios alarmantes que expuseram a realidade das mulheres na profissão. Relatos de agressões e assédios a jornalistas e criadoras de conteúdo durante o exercício de suas funções tornaram-se frequentes. Duda Dalponte, da TV Globo; Nani Chemello, da Rádio Inferno; e Aline Gomes, da CazéTV, compartilharam com O GLOBO suas experiências, revelando como é ser mulher em um ambiente predominantemente masculino.
Durante a cobertura da final da Libertadores, Duda Dalponte passou por uma situação constrangedora em que foi puxada pelo cabelo três vezes enquanto fazia uma transmissão ao vivo. Inicialmente, ela acreditou que a primeira situação fosse um acidente, mas ao perceber que se tratava de uma ação intencional, a repórter sentiu uma onda de raiva e indignação. “Naquele momento, percebi que não era só eu. Outros telespectadores também se solidarizaram comigo, mas ninguém conseguiu identificar o autor”, contou Duda. Para ela, o apoio é essencial, e a repercussão de suas experiências é fundamental para trazer à luz a discussão sobre assédio no meio.
Além de Duda, Nani Chemello também vivenciou uma situação difícil. Em uma partida do Internacional, o lateral Bernadei retirou bruscamente seu fone de ouvido e a intimidou ao final do jogo por críticas que ela havia feito. Nani desabafou sobre o impacto emocional da situação, que a levou a restringir interações em suas redes sociais. “Aquela semana foi intensa e difícil, especialmente considerando o histórico de paixão que tenho pelo Inter, que frequento desde minha infância”, explicou Nani.
Pelo lado de Aline Gomes, a experiência foi igualmente delicada. Após uma vitória do Santos, Aline foi alvo de um torcedor que a atacou fisicamente, puxando os cabos de sua transmissão. “Senti uma crise de ansiedade forte e precisei de ajuda. Outros torcedores foram solidários, o que fez uma grande diferença para mim”, relatou Aline. Apesar das dificuldades, ela afirmou que nunca havia vivido uma experiência negativa em sua carreira, destacando que a internet, por outro lado, pode ser um ambiente hostil.
Os relatos de Duda, Nani e Aline ilustram que a luta das mulheres no jornalismo esportivo vai além de uma batalha pessoal; é uma questão coletiva que exige mudanças. Em 2018, a repórter Bruna Dealtry passou por uma situação semelhante, quando foi beijada à força por um torcedor. O mesmo aconteceu com Renata de Medeiros, que foi insultada e agredida durante uma cobertura. O cenário atual, portanto, exige uma reflexão não apenas sobre as ações individuais, mas sobre a cultura que perpetua esse tipo de comportamento.
Caminhos para a Mudança: Uma Nova Era no Jornalismo Esportivo?
A reflexão sobre o papel das mulheres no jornalismo esportivo e a necessidade de um ambiente mais seguro é urgente. Em 2024, o técnico Abel Ferreira gerou polêmica ao afirmar que só devia satisfação a três mulheres após uma pergunta de uma repórter, levantando discussões sobre a desvalorização da mulher no esporte. Essa mentalidade ainda persiste em muitos segmentos da sociedade, exigindo uma mudança cultural que promova respeito e igualdade.
Os relatos de Duda, Nani e Aline são um chamado à ação. A visibilidade que suas histórias ganharam se torna um meio para que outras mulheres se sintam encorajadas a compartilhar suas experiências e lutar por seus direitos. No fundo, todas esperam que, em um futuro próximo, a presença feminina na área não seja mais um desafio, mas uma realidade aceita e respeitada.

