Longas Esperas e Políticas Restritivas
A experiência de viajar para os Estados Unidos tem se tornado cada vez mais desafiadora. Nos últimos meses, turistas relataram tempos de espera em aeroportos americanos que chegaram a quatro horas — os mais prolongados em 24 anos de história da Administração de Segurança do Transporte (TSA). Essa situação crítica é resultado de uma paralisação parcial do governo dos EUA, a mais longa da história do país, iniciada em fevereiro deste ano.
Com o Congresso sem conseguir aprovar um orçamento para a agência aeroportuária, fiscais da TSA trabalharam sem remuneração por mais de 30 dias, levando à demissão de mais de 500 profissionais e a uma redução drástica nos serviços de segurança.
Recentemente, uma ordem presidencial assinada em 30 de março restaurou os pagamentos aos funcionários da TSA e promete aliviar as longas filas, mas a imagem de aeroportos abarrotados já se espalhou pelo mundo, impactando negativamente a percepção dos viajantes sobre o destino.
Impacto da Percepção Internacional
O timing dessa crise não poderia ser mais crítico, uma vez que os EUA se preparam para eventos significativos, como a Copa do Mundo da FIFA e o centenário da Rota 66. Apesar de, em anos normais, esses fatores impulsionarem o turismo, a combinação de uma percepção negativa e políticas controversas tem afastado os visitantes.
Dados do Barômetro Mundial do Turismo mostram que, em 2025, o turismo para os Estados Unidos caiu 5,4%, enquanto o restante do mundo experimentou um crescimento de 4%. Entre os turistas canadenses, a queda foi alarmante: 22% a menos em comparação ao ano anterior, representando a maior redução global.
Além das filas, a presença constante de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) em aeroportos tem gerado desconforto entre os viajantes. Embora inicialmente sua atuação tenha sido motivada pela falta de funcionários da TSA, o secretário de Transporte, Sean Duffy, declarou que eles permanecerão por tempo indeterminado, sem treinamento específico em segurança aeroportuária, o que levanta preocupações entre viajantes.
Histórias de Viajantes Afetados
Sandra Awodele, uma cidadã americana naturalizada nascida na Nigéria, expressou sua ansiedade em relação à presença do ICE nos aeroportos. “Embora nunca tenha enfrentado problemas, a possibilidade de ser detida devido a protocolos desconhecidos é assustadora”, afirma. Ela revela que alterou seus planos de viagem em várias ocasiões, dependendo da intensidade da presença do ICE no aeroporto de chegada.
A situação se complica ainda mais com propostas de governo que sugerem a exigência de histórico de redes sociais de viajantes de 42 países, incluindo o Reino Unido e a maior parte da Europa, como pré-requisito para entrada nos Estados Unidos. Embora não tenha sido implementada, essa ideia já gera receios entre os viajantes.
Sentimentos Antiamericanos e Suas Consequências
O ressentimento crescente em relação aos Estados Unidos, alimentado por políticas do governo anterior, também impacta a decisão de viajar. Johan Konst, um profissional de relações públicas na Holanda, que costumava visitar os EUA com frequência, agora é mais seletivo com suas viagens. “A sensação de ser tratado como um oponente, em vez de um aliado, nos faz repensar nossas visitas”, conta.
Anita Shreider, da Alemanha, embora planeje uma viagem para o país, ouviu de amigos que cancelaram suas viagens de verão por descontentamento com as políticas americanas. “Não são mudanças de política específicas, mas uma sensação geral de desconforto que leva algumas pessoas a evitar viajar para os Estados Unidos”, explica.
Alternativas para um Turismo Sustentável
Apesar desses desafios, alguns operadores turísticos apontam que, ao chegarem, muitos visitantes se surpreendem positivamente com a experiência. Paul Whitten, fundador da Nashville Adventures, ressalta que, com a preparação adequada, é possível navegar pelas dificuldades impostas. “Prepare sua papelada e planeje tempos de viagem mais longos; isso pode fazer toda a diferença na experiência”, orienta.
O advogado de direitos civis, Evan Oshan, também recomenda que viajantes levem documentação que comprove o motivo da viagem e entendam seus direitos antes de embarcar. “Embora a Patrulha de Fronteira tenha ampla autoridade, os viajantes contam com proteções constitucionais em solo americano”, enfatiza.
A Associação de Viagens dos Estados Unidos reconhece a necessidade de alinhar as expectativas dos viajantes com a realidade que encontram ao chegar. Muitos aeroportos estão adotando processos para agilizar a segurança e o desembarque, buscando minimizar as filas e melhorar a experiência do turista.
Conforme o mundo continua a mudar, a atração dos Estados Unidos como destino turístico ainda persiste, mesmo que as circunstâncias se tornem cada vez mais complexas. Johan Konst resume bem esse sentimento: “Continuo a amar os EUA e seu povo; no entanto, as políticas atuais me fazem repensar quantas viagens eu realmente farei”.

