Exonerações na Alerj: Um movimento político estratégico
Durante o recesso parlamentar, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) fez um anúncio significativo na noite desta terça-feira ao exonerar 206 funcionários. A decisão foi publicada em uma edição extraordinária do Diário Oficial e abrangeu comissionados que haviam sido indicados por figuras influentes do estado, incluindo Sérgio Cabral e Paulo Melo, ex-presidentes da Casa. Entre os demitidos estão Marco Antônio Neves Cabral e Suzana Neves Cabral, filho e ex-esposa do ex-governador Sérgio Cabral. A exoneração foi assinada pelo atual presidente em exercício do Legislativo fluminense, Guilherme Delaroli (PL).
Suzana, que trabalhou na Alerj desde agosto de 2016, ocupava uma posição comissionada na Diretoria-Geral, recebendo um salário líquido de R$ 10.910,88. Marco Antônio, por sua vez, havia sido nomeado como Assistente 1 em março deste ano e estava lotado na Assessoria da Presidência, com um salário de R$ 9.741,91 após descontos.
A presidência da Alerj não se pronunciou sobre as exonerações, afirmando que os atos fazem parte do processo normal de transição na administração e visam aprimorar a gestão pública e os serviços oferecidos à população fluminense.
Um sinal político no Legislativo
Nos bastidores da Alerj, a lista de exonerações foi interpretada como um recado político, mais do que um simples ato administrativo. A medida reflete um movimento calculado de Delaroli para desmantelar estruturas antigas que perduraram por várias gestões e resistiram a múltiplos acordos internos. Os servidores analisam que a decisão não se limitou apenas a cargos, mas também a redes de influência que existiam dentro da Assembleia.
Dos 206 funcionários exonerados, 47 eram indicações de Paulo Melo, que presidiu a Alerj entre 2011 e 2015, enquanto 17 haviam sido nomeadas por Sérgio Cabral, que ocupou a presidência do Legislativo de 1995 a 2003. Segundo informações do RJ2, da TV Globo, a presidência da Casa tem indícios de que existiriam funcionários fantasmas entre os nomeados.
Em declaração ao telejornal, Paulo Melo afirmou que as demissões são um direito legítimo de quem ocupa o cargo de liderança. Além disso, ele ressaltou que dois dos afastados — o segurança Marcelo Neves e o instrutor de artes marciais Pedro Lukas — prestavam serviços para a deputada Franciane Motta (Podemos), esposa do ex-parlamentar, e que ambos eram considerados valiosos para a equipe.
Reformulação administrativa em andamento
Internamente, Delaroli tem mencionado a aliados que encontrou uma estrutura inchada e opaca, com setores que operavam quase de forma independente e pouca clareza sobre quem realmente exercia funções com responsabilidade. Antes de realizar as exonerações, ele iniciou uma inspeção informal nos departamentos, buscando identificar funcionários que não estavam presentes e aqueles que acumulavam funções apenas no papel.
As demissões, porém, podem ser apenas o começo. Rumores nos bastidores sugerem que uma lista com cerca de mil nomes está sendo analisada para possíveis demissões futuras. Assessores apontam que o ex-presidente Rodrigo Bacellar (União) não ficou satisfeito com as intervenções de Delaroli, especialmente por receber conselhos de Sérgio Cabral.
A percepção entre os funcionários é de que essa foi apenas a etapa mais visível do processo — uma ação que precisava ser tornada pública para dar suporte político às futuras decisões da presidência interina da Casa. Nos gabinetes, o movimento é visto como uma estratégia de Delaroli para assumir o controle da máquina administrativa em um período de incertezas políticas. Com a presidência em disputa e alianças sendo reorganizadas, dominar a estrutura torna-se essencial para qualquer projeto de poder no Legislativo.
A promessa de Delaroli a seus aliados é que a próxima fase será focada em critérios técnicos, através de análise de currículos e na reestruturação de áreas estratégicas. Tal abordagem é percebida por alguns como um ajuste de contas silencioso, um aviso de que antigos padrinhos já não têm a mesma influência que antes.

