Um Espaço Democrático para a Arte
Na comemoração de quatro décadas do Paço Imperial como um importante centro cultural, uma nova exposição repleta de obras de mais de cem artistas se destaca. Claudia, uma das curadoras, enfatiza que o objetivo não foi criar uma linha do tempo ou hierarquia entre as obras. “Buscamos misturar todos os estilos. Isso reflete a atmosfera democrática do Paço, que se tornou um ponto de encontro para artistas, estudantes de arte e um público diversificado”, comenta. Segundo ela, o espaço acolhe desde o curador internacional até o vendedor de pipoca, criando um ambiente inclusivo. A mostra inclui também uma recriação do jardim projetado por Burle Marx, que foi apresentado na exposição comemorativa do centenário do artista em 2008.
A programação do evento é rica e variada, incluindo um debate no sábado, às 15h, com os curadores e os ex-diretores Paulo Sérgio Duarte e Lauro Cavalcanti (atualmente à frente da Casa Roberto Marinho). Além disso, uma série de vídeos produzidos pela Rio Arte, que destaca artistas como Amilcar de Castro, Anna Maria Maiolino e Antonio Manuel, também será exibida.
A Importância do Paço para a Cultura Carioca
Reinaldim, outro curador da exposição, ressalta que a celebração vai além do próprio Paço. “Este projeto cultural teve um papel determinante, dando início a um corredor cultural que se expandiu com a inauguração de instituições como o CCBB e os Correios, alcançando hoje os museus da Praça Mauá”, destaca. Ele acredita que essa iniciativa não só influencia as artes, mas também contribui para a revitalização do Centro da cidade, demonstrando que a ocupação de edifícios tombados para atividades culturais é uma abordagem acertada.
No decorrer da montagem da exposição, o artista Luiz Aquila compartilhava suas obras mais recentes, inspiradas por uma viagem ao México. Com 83 anos, Aquila já realizou seis exposições individuais no Paço, a mais recente em 2022, com o título “Panorama do Ateliê”. Para ele, o convite de Claudia foi uma oportunidade de apresentar suas novas criações, ao invés de obras de sua trajetória artística anterior. “O Paço é um espaço fascinante que permite diversas configurações para as exposições. Com as reformas que transformaram o local em um centro cultural, a arte agora pode ocupar plenamente este espaço histórico”, afirma, enquanto ri ao lembrar que não precisou dar “nenhum tiro” durante o processo.
Contribuições de Artistas Reconhecidos
Luiz Pizarro, professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage e também com quatro exposições individuais no Paço, estava presente para acompanhar a instalação de suas obras, que datam da década de 1990 e são impressas em parafina. Para ele, o Paço foi fundamental para a consolidação de sua carreira no cenário artístico. “Observando o público durante as minhas exposições, noto que muitos jovens que não frequentam outros locais vêm até aqui. É um ambiente acolhedor e gratuito, que atrai uma diversidade de visitantes, desde turistas até aqueles que estão apenas passando pela região”, explica Pizarro, referindo-se ao espaço como uma grande praça conectada à Praça Quinze.
Além das exposições coletivas, duas individuais também foram inauguradas em sinergia com as celebrações, no caso de Niura Bellavinha e Marcelo Silveira. A individual de Niura, intitulada “Toró”, sob a curadoria de Marcus Lontra, Rafael Peixoto e Viviane Matesco, ocupa duas salas do Paço e apresenta obras feitas com pigmentos naturais. A intervenção “Chorare pitangas” dialoga com a história local e é uma forma de inscrição cultural.
Silveira, por sua vez, apresenta uma intervenção na fachada do Paço que utiliza tinta vermelha, evocando a imagem do sangue escorrendo das janelas. Ele relaciona essa obra com a história da condenação de Tiradentes e as cicatrizes deixadas pela mineração ao longo dos séculos no Brasil. “Esse tipo de trabalho permite explorar as narrativas históricas e as conexões com os espaços onde a arte é apresentada. Eu já havia realizado intervenções similares em outros museus, como no Museu da Inconfidência em Ouro Preto”, acrescenta Niura.
Reflexões sobre Materiais e Sustentabilidade
Silveira também compartilha seus métodos de trabalho. “Utilizo materiais que chamo de ‘madeira sem lei’, provenientes de móveis antigos descartados, como jacarandá e imbuia. Essas peças criam uma caligrafia suspensa que nos faz refletir sobre a legislação do Império, que regulava os tipos de madeira que podiam ser utilizados”, finaliza, conectando a arte à história social e à sustentabilidade.

