A diversidade cultural dos presépios brasileiros
A exposição ‘Caminho da Estrela’, realizada desde 1988 no Fórum da Cultura de Juiz de Fora, destaca mais do que simples peças decorativas. As obras trazem à tona histórias, modos de vida e expressões artísticas que atravessam gerações e fronteiras. Cada presépio expõe uma interpretação única do nascimento de Jesus, refletindo os materiais disponíveis em cada região e a sensibilidade dos artesãos.
A coleção impressiona pela variedade, apresentando obras que vão desde presépios minúsculos feitos de bolinhas de gude até criações elaboradas com massa de pão, conchas, palha de milho e até caixas de fósforos. São mais de 60 exemplares que vêm de diferentes cidades do Brasil, como Divinópolis, Piúma (ES) e Rio Negro (PR), além de países como Bolívia, Equador, Itália, Peru e Polônia.
O Fórum da Cultura, localizado na Rua Santo Antônio, em Juiz de Fora, abriga a mostra, que fica em cartaz até o dia 9 de janeiro de 2026. As visitas são gratuitas e podem ser feitas de segunda a sexta-feira, das 10h às 19h.
Conheça algumas das peças emblemáticas do acervo
Dentre os destaques da exposição, encontramos o presépio feito de bolinhas de gude, uma criação que carrega uma rica história emocional. Esta peça, concebida pelo artista Cícero Campos, é um reflexo de criatividade e memória familiar. O primeiro presépio que ele criou foi tão bem recebido por sua esposa que acabou produzindo um segundo para a família. Atualmente, apenas dois desses presépios existem, sendo um deles parte do acervo do Museu de Cultura Popular da UFJF e o outro na posse da própria família do artista, que ganhou um valor simbólico ainda maior após seu falecimento.
Outro ponto alto da exposição é o presépio feito de massa de pão, que se destaca não apenas pela singularidade do material, mas também pela profunda simbologia que conecta o nascimento de Jesus ao significado histórico de Belém, conhecida como a “casa do pão”. O processo artesanal de assar o pão de forma correta é fundamental para garantir a resistência e durabilidade da obra, que é uma tradição equatoriana.
Em seguida, temos o presépio confeccionado com conchas, um tributo à relação entre fé e o mar. Produzido no litoral capixaba por Nelcineia Bayerl Taylor, conhecida como Dona Nilce, esta peça valoriza a identidade local de Piúma, a “cidade das conchas”, onde aproximadamente 200 famílias sobrevivem do artesanato em conchas. As criações de Dona Nilce já ultrapassaram fronteiras e alcançaram outros estados brasileiros e até países da América Latina, EUA e Europa.
Outro exemplo fascinante é o presépio de palha de milho, uma obra que traz à tona a delicadeza dos elementos naturais. Criado por Doralice Horn em Rio Negro, Paraná, essa peça é feita com palha de milho, musgos e flores desidratadas, montada dentro do fruto conhecido como pente-de-macaco. O trabalho é uma continuação da tradição familiar, iniciada nos anos 1970, inspirada pela paixão de Doralice e seu esposo, Meinrad Horn.
Por fim, destaca-se o presépio em uma caixa de fósforo, um retábulo boliviano que, apesar de seu tamanho reduzido, impressiona pela riqueza de detalhes. Este pequeno oratório retrata cenas religiosas que fazem parte da cultura andina e é considerado o menor presépio do acervo do Museu de Cultura Popular da UFJF, revelando a tradição de criar retábulos que servem como portáteis oratórios retratando tanto a religiosidade quanto críticas sociais.
Com uma variedade tão rica de obras, a exposição ‘Caminho da Estrela’ proporciona uma imersão cultural que certamente tocará o coração dos visitantes, convidando-os a refletir sobre a arte e a diversidade cultural do Brasil e do mundo.

